Nos relacionamentos abusivos, a gente mete a colher sim! | #AgoraÉQueSãoElas

Por Renata Albertim*

Tudo começou em 2016. Na época nove mulheres feministas e de Recife/PE se propuseram a criar e desenvolver uma rede de apoio para ajudar mulheres que viviam algum tipo de relacionamento abusivo. A ideia surgiu em um evento de startup e empreendedorismo, específico para o público feminino, onde Emily Blyza (uma das integrantes na fase inicial) contou que fazia parte de um grupo de WhatsApp em que uma mulher conseguiu gravar um áudio mostrando que o companheiro a agrediu e todas as demais mulheres que faziam parte desse grupo ficaram sem saber ao certo como ajudar.

Quando Emily externou essa situação ficamos todas com a mesma dúvida: como ajudar uma mulher que está vivendo uma relação abusiva? Mesmo sem saber ao certo o caminho a seguir, nos propusemos a descobrir. Fomos em Delegacia da Mulher, Centro de Referência, ONGs, conversamos com advogadas e nesse meio tempo criamos uma página no Facebook. Tudo isso aconteceu em um final de semana e coincidiu com o relato de Cândice Dantas, recifense que postou na rede social a agressão que sofreu do seu namorado e que gerou bastante repercussão na mídia local e nacional. Apesar de compreender que o tema era muito delicado e ao mesmo tempo bastante necessário, não tínhamos a pretensão de ir tão longe, mas o trabalho certo e cheio de empatia foi ampliando a nossa voz e chegando a muito mais mulheres em todo o Brasil.  No mesmo final de semana em que criamos a página no Facebook, recebemos por inbox um desabafo de uma mulher do Paraná falando sobre os traumas que ainda vivia mesmo depois do relacionamento abusivo ter chegado ao fim. Essas e outras histórias que fomos nos conectando foram as sementes para a construção de algo maior.

A cada dia que passava fomos compreendendo o que estava por trás de um relacionamento abusivo, o motivo que fazia as mulheres permanecerem na situação e porque era tão difícil romper o ciclo de violência. Descobrimos que uma das maiores dificuldades é a falta de apoio que a mulher em situação de vítima se encontra. E foi aí que nos preparamos para atuar. O Mete a Colher é uma rede de apoio entre mulheres com o objetivo de ajudar todas aquelas que vivem um relacionamento abusivo. Identificamos que os maiores problemas para enfrentar uma situação de violência é a falta de apoio emocional, desconhecimento dos direitos conquistado pelas mulheres, e a dependência financeira do companheiro. A partir disso, passamos a reunir mulheres que queriam ajudar de forma voluntária, em alguma dessas três categorias, e fazer as conexões entre quem precisava de ajuda e quem queria ajudar.

Desde de 2013 o país vinha fervendo em debates calorosos sobre política, violência, feminismo e problemas sociais. Acreditamos muito que a Primavera Feminista, e principalmente os debates que ganharam repercussão no ciberespaço, contribuiu para o Mete a Colher abrir o espaço para que as mulheres se sentissem à vontade para relatar a violência sofrida no seu cotidiano. Foi assim com Lourdes. Lourdes é uma mulher de aproximadamente 40 anos que estava há mais de 10 anos lutando para punir o agressor e ex-companheiro que desfigurou seu rosto numa violência física brutal. Através de um programa televisivo policial local, ficou sabendo do Mete a Colher, e veio conversar com a gente pelo inbox. Contou sua história e sua descrença na lei porque tinha uma década, o mesmo tempo da existência da Lei Maria da Penha, que o ex-companheiro continuava a ameaçar a sua vida. Contactamos Lourdes com uma advogada que estava cadastrada na nossa rede e juntas seguiram para agilizar o processo que estava correndo na justiça. Depois de alguns meses Lourdes passou a ser acompanhada também pelas advogadas do Centro de Referência da cidade com o objetivo de acelerar o andamento do processo. Quase um ano depois, recebo uma mensagem de áudio de Lourdes, com alegria na voz, falando que o ex-companheiro ia ter prisão preventiva e que seus anos de tormento estava finalmente chegando ao fim. Foi nessa hora que pensamos: o caso de Lourdes está fazendo todo o nosso esforço valer a pena!

A força do nosso trabalho também vem das nossas próprias histórias. Eu, Aline, Lhaís, Carol, Mari e Thaísa nos consideramos todas feministas, nós sabemos o quão difícil é viver um relacionamento abusivo visto que algumas já experienciaram em suas próprias relações no passado ou porque nossas mães, amigas e outras parentes sofreram na pele. E levamos a sério a máxima que nenhuma mulher deve sofrer sozinha!

Em quase dois anos de atuação, o Mete a Colher ajudou diretamente cerca de 2 mil mulheres via inbox das redes sociais. Em Julho de 2017, para aumentar a rede e criar um espaço mais seguro para as mulheres conversar, lançamos o App Mete a Colher (disponível para Android) fruto de uma campanha de financiamento coletivo que reuniu mais de 500 apoiadores. Até agora a plataforma reúne 8 mil mulheres ativas e cada pedido de ajuda recebe uma média de 4 respostas de mulheres diferentes. Acreditamos demais que o mundo online é capaz de atuar no combate à violência doméstica. Não conseguimos ainda contabilizar quantas mulheres estão livres de seus agressores porque uma das características desse tipo de relacionamento são as idas e vindas. No entanto, temos a certeza que a cada ida e vinda a rede contribui para que a mulher se fortalecer cada vez mais.

Para o ano de 2018 o Mete a Colher promete melhorar a experiência de uso do app, lançando a versão 2.0 e consequentemente a versão iOS. É com esse trabalho que o time subverte o velho ditado: em briga de marido e mulher, a gente mete a colher sim! E amamos fazer isso! <3

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*Renata Albertim é co-fundadora do Mete a Colher.