Mulheres Rodadas: foliã, Carnaval e luta

Foto: Lui Azevedo/Sobre Amor e Purpurina 

Por Débora Thomé e Renata Rodrigues*

O Carnaval, ao longo de toda a sua história, sempre dialogou com a conjuntura. Há quatro anos, desde que criamos o Mulheres Rodadas, um bloco carnavalesco que faz também ativismo feminista, temos repetido: a festa nunca aconteceu no vácuo; por mais que assim possa parecer. Como um movimento feito por pessoas e, principalmente, que se revela na exaltação máxima do estar na rua, estar no espaço público, o Carnaval propõe a subversão das regras, do governo, do poder.

Em um ano no qual as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, as duas maiores capitais do Brasil, são governadas por prefeitos representantes do conservadorismo, as restrições aos movimentos de rua e/ou do Carnaval se tornaram ainda mais evidentes.

Recentemente, sem qualquer explicação razoável, o Tambores de Olokun teve seu ensaio ameaçado no Rio. O argumento falso e absurdo era de que o barulho no Aterro do Flamengo incomodava os gatos do parque. Muitos ensaios de rua estão sendo cancelados. Mesmo o desfile das escolas de samba perdeu metade do apoio da prefeitura.

Os blocos de Carnaval têm tido dificuldades para estabelecer seus desfiles, roteiros, licenças. Vê-se, claramente, que a ideia é controlar a folia e cerceá-la; algo a que os movimentos carnavalescos sempre fizeram enorme resistência. A folia não pode ser jamais conservadora, ela é expressão da subversão, não do status quo.

Sem dúvida, esses são temas de todos e todas nós. Ocupar a rua em segurança e liberdade deveria ser um direito sempre preservado. Porém, quando se trata de momentos de cerceamento, é preciso estar atento ao fato de que os grupos vulneráveis são os que primeiro experimentam a limitação dos seus direitos.

Ao longo da preparação para este Carnaval, os movimentos de ocupação da rua debateram juntos sobre como enfrentar todas as limitações que essas prefeituras têm criado. No entanto, é fundamental sempre levarmos em conta que, assim como a sociedade, o Carnaval e a ocupação dos espaços públicos têm também o seu viés de gênero (aliás, como o de raça e de classe).

Nas últimas décadas, é inegável que as mulheres foram aumentando o seu papel de protagonismo na festa, mesmo assim, as pesquisas de opinião ainda indicam que os homens consideram que uma mulher na rua no Carnaval é uma mulher disponível. E por disponível entenda-se objeto passível de assédio em menores ou maiores graus de violência. Quando o discurso do poder do momento enaltece toda esta versão conservadora, ficamos ainda mais expostas.

Essas pautas e preocupações devem passar a ser de todos os blocos e coletivos que sempre atuaram de forma mais resistente e combativa durante o Carnaval. É um problema de toda a folia, e não somente das foliãs. Para que a festa possa ser realmente livre, não basta requisitarmos o uso das ruas: colombinas, fadas e ciganas precisam também ter a certeza de que são livres em seus corpos para aproveitarem a festa sem ameaças e como bem entenderem.


*Débora Thomé e Renata Rodrigues são fundadoras do Bloco Mulheres Rodadas