Violência contra Mulheres na Política: “Na política e fora dela, o que queremos é respeito” por Patrícia Bezerra

Por #AgoraÉQueSãoElas

por Patrícia Bezerra*

24 de maio de 2017. Logo que tornei pública minha decisão de deixar a pasta de Direitos Humanos e Cidadania na Prefeitura de São Paulo, as redes sociais já estampavam frases como “só podia ser uma mulher”, “não aguentou o tranco”, “bota um homem no lugar dela que dá conta do recado”. Comentários semelhantes apareceram – pasmem – em diversos grupos políticos do WhatsApp dos quais participo.

Fui alçada a Secretária de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, em um governo com apenas três secretárias mulheres e que tinha acabado de fechar as portas da Secretaria de Políticas para Mulheres.

Meses antes eu havia sido reeleita vereadora, a mulher mais votada no Legislativo paulistano. Também como vereadora desde 2012, sinto na pele o tipo de machismo que estrutura o poder no Brasil como um clube essencialmente masculino.

Nos meses em que ocupei o cargo de Secretária, enfrentei todo tipo de preconceito: ser mulher, ser evangélica, ser defensora dos direitos humanos. Ao me opor à intervenção desastrosa na cena de uso de drogas na região da Luz, fui parar na capa de jornais. Não só pela postura adotada contra a ação, mas também por me opor ao tratamento dado aos moradores de rua e dependentes químicos. Neste período, a enxurrada de comentários machistas continuou nas redes sociais.

Recentemente, um parlamentar  – aquele que tatuou Temer no peito – não se preocupou em esconder uma constrangedora conversa de WhatsApp em que dizia para uma mulher: “Mostra tua bunda, afinal, não são suas profissões que destacam como mulher, é sua bunda. Vai lá, põe aí, garota”. O mesmo “nobre deputado” assediou uma repórter dizendo que para ela “mostraria o corpo todo”, e não apenas a tatuagem.

A vulgaridade da mensagem e a falta de pudor no trato escondem algo ainda mais pernicioso: a violência verbal a que nós, mulheres na política e fora dela, somos sujeitas virtualmente todos os dias.

Qualquer forma de violência contra a mulher é injustificável, hedionda, covarde e vergonhosa. Entre as muitas formas que a violência contra mulher assume, a violência das palavras e gestos é absurdamente corriqueira.

Naturalizar a violência verbal é ser conivente com ela, inclusive no Legislativo brasileiro. Falo da violência dos adjetivos depreciativos nos corredores e nas tribunas das diversas casas de lei pelo Brasil. Falo da violência das candidaturas de mulheres que servem como instrumentos para alavancar candidaturas de parlamentares homens. Falo da violência em negar a mulheres posições de destaque nos mais diversos parlamentos pelo Brasil. Falo da violência de relegar a mulher ao patamar de economista de supermercado, como defendeu o presidente Temer em março, no Dia Internacional da Mulher.

Para romper o ciclo da violência contra a mulher, é preciso construir um novo modelo de política baseada em pilares igualitários. Para isso, é necessário investimento em políticas públicas sólidas, não somente para combater a violência verbal e física, mas para garantir autonomia da mulher como sujeito de direitos. É necessário que nós, parlamentares, aprendamos a construir políticas para, com e pelas mulheres.  E que o façamos com respeito que nós, mulheres na política e fora dela, merecemos.

Nós, parlamentares, somente conseguiremos combater o bom combate contra toda forma de violência contra a mulher quando passarmos a tratar as mulheres na política como iguais.

E você, mulher em situação de violência verbal ou física, conte conosco. O que queremos é viver sem violência, e para isso respeito não é só bom, como imprescindível.

* Patrícia Bezerra foi secretária municipal de Direitos Humanos de São Paulo (2017) e está no segundo mandato como vereadora de São Paulo pelo PSDB.