Homens como Weisntein e Mayer: o tempo de vocês acabou

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Renata Corrêa*

O roteiro é tão comum que é surpreendente que a imprensa e a sociedade ainda se choquem quando um caso de assédio vêm à tona: uma vítima aparece, corajosa, e revela as violências cometidas contra ela por um homem em uma posição de poder. A opinião pública a desacredita. Aparecem novos casos e finalmente as instituições começam a se mover para conter o dano. O homem faz uma declaração pública se desculpando. A vítima desaparece dos holofotes soterrada por especulações e vergonha.

O caso Harvey Weinstein não é diferente. O poderoso produtor de Hollywood está há décadas assediando jovens atrizes e funcionárias, avançando sobre seus corpos, usando seu nome e a sua posição de poder para as constranger e estuprar. Como isso não veio à tona antes? O primeiro caso de assédio cometido por Weinstein data da década de setenta do século passado. Não é possível que essas mulheres não tenham dito nada.

Bom, elas disseram. Mas infelizmente seus relatos não foram o suficiente para que esses assédios fossem levados a sério. As investidas sexuais inapropriadas de Weinstein não pareciam algo relevante o suficiente para que seus colegas de indústria agissem para pará-lo. Um estupro é menos relevante que um Oscar, que uma crítica positiva na imprensa ou um blockbuster que alavancaria bilheterias e cachês.

No Brasil a mesma lógica se repetiu com o caso José Mayer. A descredibilização da vítima se deu de forma violenta, mesmo o assédio tendo sido testemunhado por diversas pessoas da equipe. Ao contrário, a presença de tantas testemunhas é frquentemente usadada para justificar a naturalizacão da violência ao invés de dar a extata dimensão de seu absurdo.

Foi preciso acontecer uma massiva mobilização de mulheres para que a voz de Su Tonani, publicada aqui no #AgoraQueSãoElas pela primeira vez,  fosse ouvida. O muro de silêncio engendrado por uma cultura machista teve as suas primeiras rachaduras. O movimento “Mexeu Com Uma mexeu com Todas” foi uma mudança de paradigma no tratamento dado aos casos e assédio no Brasil. A voz das mulheres desestabilizou o status quo, e essa desestabilização é fundamental para que os agentes de assédio entendam que não estarão seguros, para que esse clima de opressão não se perpetue. Para uma mulher ser assediada basta um homem que crê na impunidade. Para que ela seja ouvida, é preciso que um coletivo de mulheres grite alto e não recue, apesar dos riscos morais, físicos e financeiros que isso acarreta. Ainda é abissal a desigualdade.

Os casos Weistein e José Mayer tem muito a nos ensinar. A primeira coisa é que os casos de assédio não são segredos – eles são comentados, debatidos dentro do meio profissional, as mulheres sabem que estão vulneráveis, trocam informações de forma sussurrada e clandestina, se protegendo de maneira precária. Mas para as instituições eles nunca parecem sérios o bastante para que o homem que comete tais gestos seja punido de forma exemplar. A segunda coisa e mais trágica é que casos de assédio não são exceção. Eles são a regra, pois assédios e estupros são mecanismos da sociedade patriarcal, eles reiteram diariamente para a mulher tudo aquilo que elas precisam aprender: a silenciar. Que sua credibilidade não vale nada. Tenha medo de circular pelo espaço público, tenha medo de ter destaque para não chamar atenção, a repudiar o sexo e principalmente: saber que quem manda ali. Um homem, que poderá te destruir.

E é por isso que os homens ao redor silenciam, numa fantasia perversa de estar naquele lugar por merecimento ou usando alguma justificativa natural, e seguem desumanizando as mulheres, que são suas vítimas ocasionais, efeitos colaterais dos grandes feitos de um homem de talento.

Joseph Campbell, o famoso teórico que escreveu “A Jornada do Herói (livro fundamental no qual são baseados 9 entre 10 roteiros de blockbusters hollywoodianos e fixou a ideia do monomito no imaginário da indústria audiovisual) foi questionado por uma aluna, Maureen Murdock, sobre como as questões de gênero se aplicavam na jornada. Ele respondeu da seguinte maneira:

“A mulher não precisa fazer a jornada. Em toda tradição mitológica a mulher está lá. Tudo que ela tem que fazer é perceber que ela é aonde as pessoas estão tentando chegar”

O livro foi escrito em 1949, mas ainda hoje roteiristas, produtores, diretores e executivos, nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo, acreditam que nós ainda somos o prêmio a ser conquistado e não pessoas.

Ao romper o silêncio estamos dizendo que sim, iremos cumprir a nossa jornada e iremos chegar ao final dela vivas, para impedir que outras mulheres passem pelo mesmo que passamos. Sobreviver e não se calar são as melhores estratégias para que homens como Weisntein e Mayer saibam que o tempo deles se esgotou.

*Renata Corrêa é roteirista e escritora.