E aí a gente se juntou!

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Branca Moreira Alves*

Me chamo Branca Moreira Alves e tenho uma vida inteira dedicada ao feminismo. Hoje vivo mais retirada da militância, em uma cidade pequena, mas a velha chama não se apaga. É com muito entusiasmo que acompanho essa nova geração de militantes que não temem se assumir feministas.

O convite de Antonia Pellegrino para assistir ao documentário #PrimaveraDasMulheres (realizado por Antonia Pellegrino e Isabel Nascimento Silva, que será exibido no canal GNT dia 19 de outubro às 23h) atiçou a antiga raiva. Por se tratar de um filme, a um tempo, belo e triste.

É belo ver essas jovens mulheres indignadas, cheias de garra e luta, impacientes e sem disposição para aceitar, para passar por cima, deixar prá lá. Ao mesmo tempo é triste reconhecer que sua indignação repete o que levou às ruas as jovens revoltadas do passado, como nossa geração dos anos ´70. As mesmas bandeiras, oh céus, ainda!

Esse filme comove porque puxa um fio longo. Vejo essas jovens e nos vejo há 40 anos, e não posso deixar de ver mais longe ainda, lá para os ecos de revolta que chegaram até nós. Penso em 1776, quando Abigail Adams escreveu a seu marido John, representante de Massachusetts junto ao II Congresso Continental reunido em Filadélfia para redigir a Constituição das colônias revoltadas: ”em seu novo código de leis, lembrem-se das mulheres. Estamos dispostas a fomentar uma rebelião e não vamos nos sentir obrigadas a respeitar leis para as quais não tivemos nem voz nem representação.” Volto até 1791, quando Olympe de Gouges publicou sua “Declaração dos Direitos da Mulher” em paródia à “Declaração dos Direitos do Homem”, exigindo junto à Convenção Nacional da Revolução Francesa o direito de voto. Acabou declarada traidora e guilhotinada – talvez a primeira mártir dessa longa luta que apenas começava!

Sua luta que se espalhou pelo mundo durante os 250 anos seguintes, colocou muitas de nós na disputa pelo direito ao voto, ao trabalho e salário igual, à presença nas universidades, à liberdade de escolher uma profissão, à igualdade legal dentro do casamento, a viver sem violência, a decidir sobre nossos corpos.

Uma história de coragem e persistência pouco conhecida e admirável. Militantes operárias, sufragistas, foram presas, agredidas, torturadas, desafiadas, acusadas, e mantiveram a luta. Sempre uma substituindo a outra por gerações, como em turnos de plantão. Por isso surpreende e indigna que os “turnos de plantão” ainda sejam necessários!

Na cena em que a ativista Manoela Miklos narra a criação do #AgoraÉQueSãoElas, ela diz: “e aí a gente se juntou”. Tem sido assim, gerações após gerações, pelo direito de definir nossas vidas! Simples assim. Ou não?

Porque se simples assim, de onde vem a resistência histórica, os 10 mil anos de civilização em que dominou – e domina – o patriarcado? Porque se, simples assim, de onde vem a indignação sempre renovada com a consciência de que, ainda, é preciso? O que nos mostra esse filme?

#PrimaveradasMulheres traz mulheres diferentes entre si unidas nessa mesma e antiga revolta, nessa mesma coragem, nessa mesma garra, das que vieram por esses séculos resistindo de geração em geração. Mostra mais uma geração que assume seu “turno de plantão” porque sabe e sente, na carne, no cotidiano, que ainda é preciso. Elas sabem que, 10 gerações depois das que no século XVIII ousaram, é o seu “turno”!

O filme mostra que não é possível calar, porque nos falta ainda garantir, pura e simplesmente, muito pelo qual lutamos desde o começo. A revolta que trouxe às ruas as mulheres por esses séculos afora, se repete!

Para mim, que estava no front há duas gerações atrás, ver as novas gerações seguindo na luta me enche de orgulho, mas também me indigna. Porque o que elas dizem nós dizíamos há 40 anos, e tantas outras diziam antes de nós! Ao mesmo tempo em que as vejo como herdeiras, me indigna que ainda seja preciso, tantas gerações depois, levar as mesmas lutas!

O que mudou é que hoje as jovens feministas tem uma arma de guerra muito mais poderosa, e que usam com segurança e criatividade. Levam sua mensagem multiplicada e conectam e arrebanham incontáveis vozes que, agora sim e finalmente, serão impossíveis de ser silenciadas. “E aí a gente se juntou”!

*Branca Moreira Alves é feminista.

#PrimaveraDasMulheres, de Antonia Pellegrino e Isabel Nascimento Silva será exibido dias 19/10 às 23h; 21/10 às 0h30; 18/11 às 0h30. E depois fica disponível no Globosat Play