Uma de nós foi morta

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Renata Rodrigues e Débora Thomé*

A noite do dia 30 de setembro estava tranquila. Depois de um ensaio poderoso e lotado na sexta-feira, mensagens começaram a pipocar no grupo de Whatsapp do Bloco Mulheres Rodadas no sábado. Em áudios nervosos, fomos informados de que o pior dos pesadelos de quem atua em um movimento feminista havia acontecido: umas das nossas havia sido morta por seu companheiro.

Ela era um pouco mais velha que a maior parte das mulheres que, todas as semanas, procuram o bloco. Estava se separando, e o rompimento não era aceito pelo ex. Encontrou no grupo um espaço de acolhimento, afirmação e alegria. Falava para todos que estava aprendendo música com outras mulheres. Teve, segundo contaram, a coragem de ser feliz, coragem que lhe custou a vida após uma briga em que foi espancada e morta. O agressor depois se matou.

Fazer um bloco de carnaval feminista é um desafio diário: como combinar a alegria da festa – e o machismo que ela sempre carregou – com questões de empoderamento e de direito das mulheres? O que começou como uma piada em 2015, virou coisa séria: tornamo-nos, mais que um bloco de carnaval, o primeiro bloco feminista do carnaval carioca, um coletivo cada vez mais atento às questões relacionadas aos direitos (ou à falta deles) das mulheres. Para além dos ensaios que acontecem ao longo de todo ano, realizamos palestras mensais com convidadas sobre vários temas do feminismo. Também costumamos ter conversas privadas com as integrantes que vêm procurar alguma das muitas coordenadoras. O bloco se tornou uma rede em que cada uma ajuda a outra com as ferramentas de que dispõe. Talvez isso seja o que nos deixou mais desnorteadas: como esta nos escapou?

Quem estuda os temas de violência contra mulher sabe que uma das maiores dificuldades de prever o feminicídio é que ele pode se esconder em pessoas amorosas ou em situações que o mundo chama constrangedoras, o que, portanto, as deixam escondidas e trancadas. O problema “é do casal”, deve ser resolvido de forma “doméstica”.

Enquanto isso, segundo o Mapa da Violência 2015 (dados de 2013), 11 mulheres foram mortas por dia por um familiar ou pelo parceiro ou ex-parceiro. Entre 1980 e 2013, mais de 106 mil mulheres foram vítimas de assassinato no país. O número de mortes violentas de mulheres negras aumentou 54% em dez anos. Os dados só não superam os de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia.

Em uma de nossas dinâmicas “sem música”, usando como mote versos de Adoniran Barbosa, fizemos a nós mesmas a seguinte a pergunta: tocar na banda para quê? Afinal, dentre tantas formas de militância, por que escolhemos essa? Por que um bloco de carnaval feminista? As respostas foram surpreendentes. “Estar entre outras mulheres”, “mudar o mundo com a música”, “combater o preconceito”. E uma delas dizia: “para me sentir viva”.

Com nossa música, com nossa militância, o bloco tem esta enorme responsabilidade com algumas mulheres: mantê-las vivas. A que foi morta por seu companheiro era uma delas. Procurou o grupo para se sentir acolhida num momento de transição. Essa importância se multiplica por mil se pensarmos que, para o bem ou para o mal, como um bloco feminista, temos encontrado grande ressonância na imprensa e nas redes sociais com aquilo que falamos, com as pautas que propomos, vide o debate relacionado ao machismo e racismo presente nas letras de algumas marchinhas, que ganhou grande impulso em 2017, ou as campanhas como #carnavalsemassédio. Além disso, fazemos um espetáculo especificamente debatendo a violência contra a mulher na música, com o qual trabalhamos junto à Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro.

Em respeito a um pedido feito pela família, demoramos a falar sobre o tema que, desde então, não nos abandonará. Na segunda-feira que sucedeu o feminicídio, nossos instrumentos, os mesmos do carnaval, tocaram para um cortejo fúnebre. Já havíamos levado nossa música a zonas de prostituição, hospitais psiquiátricos, praças, todos esses lugares em que as mulheres estão, mas, nessa trágica segunda, juntas, chorando, vimos um caixão coberto por nosso estandarte. Uma cena que nenhuma de nós foi jamais capaz de imaginar ou prever. Nele, uma mulher que, dias antes, empunhava feliz um agogô, integrando o nosso grupo. Era vida o que ela estava sentindo quando foi morta. Vida que lhe tiraram por ser mulher.

A nossa quarta-feira de cinzas será a mais difícil de todas até agora porque uma se foi e, infelizmente, sabemos que não será a última vítima de violência que virá nos procurar. Disso tiramos a lição de que temos que ser ainda mais fortes, mais coesas, mais firmes na nossa batalha.

Vamos empunhar mais alto nossos estandartes e girar mais rápido as nossas saias. Vamos gritar com os pulmões. Vamos fazer mais barulho com nossas vozes e nossos instrumentos, vamos alcançar mais pessoas com nossa música. Porque Genis somos todas quando estamos juntas. Ainda que essas pedras, por vezes, nos alcancem e nos causem feridas mortais, cada vez mais potente será o escudo da nossa ação.

Este texto é por ela. Um pouco por nós Mulheres Rodadas. Mas, sobretudo, para todas nós: mulheres.

Renata Rodrigues e Débora Thomé são fundadoras do Bloco Mulheres Rodadas.