Laís Bodanzky, Como Nossos Pais e as mulheres em alerta

Por #AgoraÉQueSãoElas

A aclamada cineasta Laís Bodanzky está nos cinemas com o longa-metragem “Como Nossos Pais”, escrito e dirigido por ela. O filme nos permite acompanhar a protagonista Rosa, intrepretada pela grande Maria Ribeiro, num processo de autoconhecimento que passa explicitamente pelo reconhecimento da desigualdade de gênero e da descoberta do feminismo. Ao experimentar mudanças nas relações com os homens e mulheres que a rodeiam, Rosa parece escutar ecos de Betty Friedan, autora de “A Mística Feminina”, publicado em 1963.

Em seu primeiro capítulo, chamado “Problema Sem Nome”, Friedan começa seu livro de modo espetacular:

“O problema permaneceu enterrado, intacto, durante vários anos, na mente da mulher americana. Era uma insatisfação, uma estranha agitação, um anseio de que ela começou a padecer em meados do século XX, nos Estados Unidos. Cada dona de casa lutava sozinha com ele, enquanto arrumava camas, fazia as compras, escolhia tecido para forrar o sofá, comia com os filhos sanduíches de creme de amendoim, levava os garotos para as reuniões de lobinhos e fadinhas e deitava-se ao lado do marido, à noite, temendo fazer a si mesma a silenciosa pergunta: é só isso?”.

Laís conta ao #AgoraÉQueSãoElas sobre essa dimensão do filme, o processo de criação que a levou até este resultado e as reações que têm recebido ao optar por falar de maneira manifesta sobre feminismo.

#AEQSE: Rosa, a protagonista de “Como Nossos Pais” está se descobrindo feminista. Você se identifica assim, feminista? Se sim, como foi o seu processo, como você se descobriu feminista?

LB: Interessante a pergunta. Eu sou feminista. E de fato me descobri feminista, assim de modo verbalizado, recentemente. Durante o processo da confecção do “Como Nossos Pais”. Tendo contato, entendendo o que é ser feminista. Acho que a gente vinha até agora com certo ranço. Um preconceito. O feminismo dos anos 60 e 70 era composto por mulheres que pareciam não dialogar com toda a sociedade, faziam reivindicações todas corretas, porém pareciam ensimesmadas.

O que eu sinto de diferente hoje, que é interessante deste novo feminismo, é que a tomada de consciência feminista hoje é mais do que um discurso. Ela é ação, atitude. Muito porque temos sim a internet, mas também porque isso extrapolou classes sociais – isso acho muito interessante – e também extrapolou gerações. As feministas dos anos 60 e 70 eram um grupo de mulheres que viveram muita opressão na sua própria pele. Por isso partiam para a luta, para esse grito. Hoje eu noto o surgimento de meninas, adolescentes e até pré-adolescentes, se dizendo feministas. Participando de grupos, discutindo o tema da mulher na sociedade. Ou seja, são meninas que ainda não tiveram tempo de vida pra sentir tanta opressão, mas que sabem que isso elas não querem. Isso eu acho muito interessante.

Além disso, há a maneira como esse novo discurso invade as nossas redes sociais, no sentido de ficarmos todas em estado de alerta. Provocando um sentimento de solidariedade entre nós todas mulheres. Acho que esse discurso não era claro naquela época, nos anos 60 e 70, e hoje ele é explícito. Movimentos como o “Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas”, por exemplo, te provocam uma atitude de estar em estado de alerta na sua vida pessoal mas também disposta a ajudar a mulher que está ao seu lado. Que você nem sabe quem é. Mas é uma mulher. E pode estar necessitado de parceria num momento extremo, de opressão extrema. Física ou psicológica.

Acho que também os termos todos da luta feminista hoje foram mais apurados e são mais divulgados. Eu vejo também que cada setor da sociedade parou pra parar pra refletir sobre sua condição de mulher. Eu enquanto cineasta, por exemplo, através de um movimento formal da Agência Nacional de Cinema – ANCINE, fizemos o levantamento numérico, tiramos uma fotografia de quem somos nós cineastas. Vimos que somos poucas. E aí vem a segunda pergunta: somos poucas por que? Onde está esse filtro?

Há o diagnóstico, mas partimos também para ações efetivas. Não é só um grito de que isso não pode continuar. O que podemos fazer efetivamente para mudar? Então o feminismo deixa de ser um discurso permeado por certo ranço e vira um discurso que fomenta ação efetiva a partir de dados concretos. Isso cria também um diálogo com os homens. Porque é uma questão de bom senso: os números comprovam, demonstram que existe desigualdade. Isso faz com que tenhamos hoje também alguma solidariedade com uma boa parcela dos homens. Muitos deles não enxergam. Não entendem. Mas muitos entendem e se solidarizam no movimento de observar e mudar de atitude. Inclusive enquanto homens na relação com coisas do cotidiano: escolher as palavras certas, saber se comportar em determinadas situações. Estes homens estão abrindo suas mentes, principalmente a geração mais nova. Assim como as meninas estão mais abertas e atentas ao que é o feminismo, os meninos pequenos estão ouvindo e entendendo que o mundo deles, a vida adulta deles vai ser outra. Diferente daquela dos pais deles.

Eu fiz um documentário antes de fazer o “Como Nossos Pais”, na época que eu estava pesquisando para o roteiro do filme. Eu tinha sido convidada para dirigir um documentário para a ESPN sobre memória olímpica pelo José Trajano. Ele me deixou livre para falar do que eu quisesse. Como eu já estava pesquisando o tema da mulher da sociedade, pensei “vou usar esse documentário para estudar a mulher no esporte”. E foi interessantíssimo tudo que eu descobri. Depois do documentário pronto, percebi que as mulheres não tinham noção da sua história e conquistas coletivas. As mulheres se comportam como minoria, apesar de serem metade da população. O que está mudando agora é que estamos divulgando informação. E isso nos trás união, força. Nós não somos minoria.

Mas voltando ao documentário, uma vez ele pronto, uma estudante acho que de João Pessoa me ligou e disse “assisti o documentário e quero fazer um trabalho a partir dele”. E aí ela me fez a pergunta – e pela primeira vez alguém me fez essa pergunta assim: “você é feminista?”

Era uma entrevista por telefone. Aí quando ela me fez essa pergunta, ela me pegou totalmente de surpresa. Eu comecei a falar “olha, veja bem, como eu vou te explicar…”. E quando eu comecei a enrolar pra responder, ela foi curta e grossa: “tá bom Laís, você não é” (risos).

Quando ela falou isso, que eu não era, aquilo pra mim foi tão chocante que eu imediatamente disse: “não, eu sou” (risos). Não dá pra titubear. Não é uma questão de “sou mais ou menos”. Sendo mulher, não tem como não ser feminista. Mas veja como é recente essa tomada de consciência. O tema da mulher sempre rondou a minha vida e o meu trabalho, mas não de forma consciente como agora. Provocado pelas mulheres ao meu redor. Minhas filhas. Alguém que vem me entrevistar. Uma pessoa que me convida para um trabalho. Como foi, por exemplo, quando eu dirigi episódios da série “Psi”, da HBO. Depois eu descobri que a Mariangela, diretora da HBO no Brasil, disse ao diretor geral do projeto Contardo Calligaris: “Contardo, você não vai montar uma equipe com mulheres, vai ser uma equipe só com homens?”. E aí ele vai mudou de atitude. Mas quem provocou a mudança de atitude dele é uma mulher. Que estava em estado de alerta.

#AEQSE: Temos alguns filmes brasileiros sendo lançados nos quais as questões de gênero, embora tratadas de maneiras muito distintas, são centrais. Como foram feitas as suas escolhas a respeito de como você trata do tema em seu filme, de modo explícito e tantas vezes nomeado? Existe uma vontade didática nessas escolhas?

LB: Eu confesso que sim, eu tinha sim uma vontade didática em algumas escolhas, uma vontade de tornar o discurso feminista explícito. Eu queria tocar em alguns temas que para mim são fundamentais. Que eu descobri durante a pesquisa e que eu percebi que eram situações universais. Eu sentia: “precisa falar”. Preciso colocar na boca da personagem. Precisa colocar um discurso falado mesmo. Eu sentia essa necessidade da fala.

Até outro dia, num debate, alguém me disse “ah, mas seu filme é tão falado. Po que que ele ele tão falado?”. E aí fiquei pensando porque. Acho que justamente pela necessidade de verbalizar determinadas coisas num espaço de glamour como a tela de cinema em alguns momentos você precisa optar por falar claramente. Não dá sempre pra ficar no “talvez você entenda, talvez sim, talvez não”.

Nós já ficamos caladas tanto tempo. O cinema tem pouco espaço de representação da mulher – não falo só de quem está nos bastidores, estou dizendo na própria tela. Temos por exemplo o selo de Bechedel, concedido apenas a filmes que atendem a critérios específicos que valorizem os personagens femininos. Para ter o selo, você tem que ter ao menos uma cena, com duração de ao menos 1 minuto, em que duas mulheres cujos personagens tenham nomes (não podem ser figurantes) e tratem de temas que não sejam homens. Basta 1 minuto de uma hora e meia de filme. Basta 1 minuto com essas características que você ganha esse selo. Parece simples né? Mas não é. Quase nenhum filme ganha esse selo. Porque não tem essa uma cena.

Eu até quero sugerir para que esse selo mude para não um selo de aprovação, mas um selo de reprovação. Porque daí iremos nas salas de cinema e todos os cartazes terão o selo de “reprovado”. Isso sim vai chamar atenção. Reprovado no que? Ah, mais um filme feito por homens, produzido por homens, escrito por homens, cujo conteúdo é o universo de um protagonista homem – normalmente um homem branco cis.

A nossa indústria dos sonhos, a indústria do audiovisual, reproduz esse pensamento. Por isso mais uma vez a necessidade de estar em estado de alerta. Acho que meu filme, que eu eu fiz nessa tomada minha de consciência, deixa clara essa minha vontade grande de ir na contramão disso. E acho que são importantes, porque são coisas que eu descobri na pesquisa que eu sei que ainda muitas mulheres nunca pensaram sobre. Mesmo as pessoas “bacanas”, “estudadas”. Elas não estavam atentas. E é normal. Porque tudo isso é recente, a gente começar a falar de modo tão claro e objetivo sobre essa realidade. Então acho que o filme também pode contribuir pra isso. Um filme é diversão, mas ele é informação e ele é reflexão.

E sobre essa pergunta, tem algo de curioso: ninguém faz essa pergunta pro Woody Allen. Porque você faz filmes tão falados (risos). Mas pra mim fazem, olha só (muitos risos).

#AEQSE: Há controvérsia sobre o papel do homem no feminismo. Em “Como Nossos Pais”, o feminismo da protagonista se constitui em diálogo com os homens da sua vida. Há espaço para os homens do feminismo de Rosa. Como você concebeu o papel dos personagens masculinos do filme?

LB: Construir os personagens masculinos foi uma coisa muito delicada. Porque eu vejo o filme como um crônica, como se fosse um retrato da sociedade hoje e da mulher contemporânea. E é um filme que assume o ponto de vista da mulher. Então os personagens masculinos são retratados do ponto de vista da mulher.

Nos debates, é muito interessante porque muitos homens levantam e perguntam: “por que esses homens são tão assim, frágeis? Ou até infantis?”. Porque eles são assim?  Na verdade, nós mulheres frequentemente enxergamos os homens assim. É que os homens não estão acostumados a serem tratados assim. Principalmente na tela de cinema. Esse tal espaço do glamour. Então existe um primeiro impacto de “uau”. “Quer dizer que eu sou assim?”.

Eu comparo com uma fotografia. Imagine uma pessoa que é sempre fotografada do mesmo ângulo. Aí um dia um fotógrafo fotografa aquela mesma pessoa, mas de um ângulo diferente. De repente o nariz ficou maior. E aí o cara pensa: “nossa, não sabia que eu tinha o nariz assim tão grande, que eu era tão narigudo”. Na verdade ele sempre foi narigudo! É que nunca mostraram que ele era narigudo.

Acho que o que o filme faz é mostrar um lado dos homens que eles não estão acostumados a ver retratado. Nos debates, as mulheres imediatamente reconhecem e quando eu falo elas fazem sim com a cabeça, sabe? Concordando (risos).

Os homens não sabem o que nós achamos deles. E é importante eles saberem. Porque também muitos dos homens, nos debates, levantam a mão e dizem: “me reconheci em várias situações”. Uns falam dando risada, Outros com um pouco de vergonha. Outros não falam nada, ficam absolutamente quietos.

A relação do homem e da mulher é como a Maria Rita Khel descreve. Um casal tem que dividir um cobertor, só que esse cobertor é muito curto. E o cobertor curto sempre cobriu, ao longo da história, mais o homem. O feminismo é a mulher se dar conta de que ela pode puxar o cobertor pra ela. E ela faz isso. Está fazendo. E está se sentindo mais confortável, mais aconchegada. Ficou mais quentinho. É uma sensação de liberdade. Gostosa. E o homem começou a sentir algo estranho. Algo que ele nunca sentiu antes. O que é isso? Esse contato pela primeira vez com o desconforto?

Eu não acho que o cobertor deva ficar mais para o lado da mulher ou do homem. Não é isso. A questão é como combinar a divisão desse cobertor. Porque ele é sim curto, gente. Então tem que ter algum combinado. Pra que fique bom pros dois. E ele só funciona através da conversa. Não é um contra o outro, é junto. Estamos juntos nesse planeta. Então, como a gente faz pra conviver e ser legal e bacana pra todo mundo? Acho que o filme, afinal, tem essa proposta. Da conversa. Tenho recebido retorno, nos debates, nos encontros, nas redes sociais… que o filme provoca a conversa. Ele não desagrega, ele agrega.

Maria Ribeiro como Rosa, protagonista de “Como Nossos Pais”.