A bancada evangélica não representa as mulheres evangélicas

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Simony dos Anjos*

DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS, O QUE É DE DEUS

(Marcos 12-17)

Temos vivido tempos difíceis. Tempos em que questões da ordem do privado têm invadido a esfera pública de maneira devastadora. Há anos, evangélicos têm alçado lugares expressivos nas lideranças políticas – seja em cargos eletivos ou de confiança dos governos – e, por sua vez, essa presença maciça da bancada evangélica trouxe para o debate público questões que não são públicas, como a emenda à pec 181 que altera o artigo primeiro da constituição que, se avançar a partir da votação de hoje na comissão, passará a considerar a “dignidade da pessoa humana, desde a concepção” (fazendo retroceder direitos aos abortamentos em casos já considerados legais e inviabilizando o avanço nesta pauta).

Recorrentemente, acontecem cultos em Câmaras Legislativas, ataques à questão de gênero com argumentos religiosos, ataque a outras religiões por meio de atividades do Estado (representado por seus agentes). Nessa lista, soma-se a questão do aborto: um dos maiores impasses entre Políticas Públicas de Saúde e Religião. E, aqui, faz-se necessário pontuar: a fé é da ordem do privado, ela nunca deve orientar políticas públicas, agendas governamentais ou ações do Estado.

A Fé é uma experiência individual de significado, sentido e existência no mundo e, por isso, pode pautar diretamente condutas morais. Contudo, não deve em hipótese alguma servir de métrica para as escolhas do outro – ainda mais quando se tem uma atividade pública que pode influenciar a vida de milhões de pessoas. Não queremos “Pastores”, “Missionários” e “Irmãos” ocupando espaço nas câmaras, senado ou ministérios. Queremos representantes que assumam suas funções de legislar e executar em favor da população; de toda a população.

Dito isso, como evangélica e feminista, acho producente refletirmos sobre a passagem bíblica do Evangelho de São Marcos 12:17, na qual Jesus é questionado sobre o pagamento, ou não, dos impostos a César. Afinal, o imposto poderia ser comparado ao dízimo? Jesus, de maneira muito sensata, diz: Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Poderíamos encerrar o texto aqui, mas prossigamos.

O que os cristãos precisam entender é que a conduta moral cristã diz respeito aos cristãos; apenas aos cristãos. E a função do Estado, enquanto garantidor de Direitos, não está submetida à religião. Dessa forma, o aborto é uma questão bastante delicada, porque ela se materializa na ordem do privado: nossas irmãs, primas, tias, amigas, colegas de trabalho, entre outras, abortam e isso parece ser uma questão privada. E ao ser tratado dessa maneira, como atitude individual de uma mulher, abre-se um flanco para submetê-lo à moral cristã. Não. O aborto não é uma questão individual, a fé é.

Por outro lado, há quem diga que proibir o aborto é defender a vida do nascituro: um debate que a princípio parece ser descolado da moral cristã. Contudo, se pensarmos as interdições colocadas no corpo da mulher, trata-se de um argumento religioso travestido de argumento jurídico. O problema é o corpo da mulher e sua sexualidade e, dessa forma, o feto torna-se um instrumento para controlar a vidas femininas. Infelizmente. Assim, não se trata de proteger a vida, mas de controlar os corpos femininos. Assim como fetos morrem, mulheres morrem. É uma disputa de quem vale mais?

Diariamente, milhares de mulheres morrem, ficam estéreis, passam dias (quiçá meses) internadas por conta de abortos mal sucedidos. Muitas mulheres, inclusive dentro de nossas igrejas, são proibidas de ter acesso aos métodos anticoncepcionais e não têm alternativa senão o aborto. A saúde reprodutiva, no Brasil, é deixada à míngua, não há educação sexual eficiente; não há respeito aos corpos femininos; não há dignidade feminina quando se trata de sexo.

E a moral cristã em muito contribui para isso: proíbe-se o sexo, proíbe-se evitar filhos, proíbe-se abortar. Escolher fazer um aborto é uma questão individual, que a moral cristã pode influenciar; ter acesso ao aborto com segurança é uma questão de saúde pública. E, em tempos de bancada evangélica, quando se discute o aborto em esferas legislativas, temos que pensar duas questões importantes para o debate:

  1. Quem legisla?
  2. No que toca à bancada evangélica, como esses representantes pensam a questão das mulheres?

 

É evidente que a maioria dos representantes políticos é homem, assim sendo, pautas femininas são vistas com o filtro do patriarcado. Para além disso, sabemos das trajetórias da maioria dos políticos: brancos, de famílias ricas e atuantes em favor de benefícios para poucos. Em outras palavras, eles estão lá para garantir benefícios para empresas, bancos, empreiteiras, etc. Vendo por esse ângulo, a questão do aborto não interessa, pois é uma questão própria das vidas femininas e, majoritariamente, de mulheres pobres. Quem está morrendo são as mulheres negras e pobres, e essas mulheres não têm voz e, muito menos, poder de pressionar os legisladores (devemos lembrar que a criminalização do aborto não é uma pauta apenas evangélica, contudo, essa bancada tem alçado expressão nos últimos anos).

Ironicamente, as igrejas evangélicas são compostas por maioria de mulheres: são 23,5 milhões mulheres e 18,7 milhões homens. Ainda nessa perspectiva, não se pode negar que nas periferias a presença da mulher negra nas igrejas evangélicas é grande; a mesma população que mais morre por abortos mal sucedidos. E, aqui, temos que discutir a formação do político da bancada evangélica, a postura desses políticos transcende a religião, é fruto do patriarcado. Excluem as mulheres dos púlpitos, ignoram passagens bíblicas que promovam protagonismo feminino e, a partir de uma ótica machista, legislam sobre o corpo, conduta e vida das mulheres.

A bancada evangélica não representa as mulheres evangélicas. Assim, para combatermos a intolerância dos evangélicos quanto à pauta feminista de liberdade ao corpo, direitos reprodutivos e de exercício da sexualidade, temos que entender que dentro das igrejas as mulheres estão sendo desrespeitadas. É preciso expor que a ordem moralista da bancada evangélica nasce da opressão que as mulheres sofrem em suas comunidades de fé, e essa opressão extrapola os muros da igreja para oprimir a todas as mulheres, por meio políticas públicas conservadoras. Nessa perspectiva, desvincular fé e estado, como Jesus nos orientou há 2 mil anos, urge. Necessitamos de um Estado laico, que discuta políticas públicas com honestidade, sem atravessamentos religiosos.

* Simony dos Anjos é evangélica,  feminista, formada em Ciências Sociais,  mestranda em Educação e autora do Blog Sim, Genuflexos.