Bafo Queer: a desobediência sexual sempre incomoda a ordem

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Solange Farkas*

O episódio recente de censura à exposição Queermuseu é acintoso e assustador.

Não é fato isolado ou sinal longínquo, trata-se de mais um precedente perigoso numa rota que leva inevitavelmente à perda de direitos, à intolerância instituída, à violência, ao obscurantismo. Mas não é exatamente inesperado: a pauta dos feminismos e dos ativismos queer, a desobediência sexual e outras coalizões não normativas incomodam profundamente os que policiam a “ordem”. Desafiam as lógicas de exclusão e apagamento que conformam nosso espaço social e subvertem as narrativas hegemônicas da história da arte.

Em 2015/2016, dedicamos a revista anual de arte contemporânea do Videobrasil ao pensamento e à produção artística que afirma as dissonâncias sexuais. Editada pelo curador peruano Miguel A. López, o Caderno Sesc_Videobrasil 11 | Alianças de corpos vulneráveis tinha como tema central exatamente os feminismos, o ativismo bicha e cultura visual. O volume resgata o Movimento de Arte Pornográfica, grupo de intervenção urbana que articulava poesia e nudismo no Rio de Janeiro do ocaso da ditadura militar; ilumina as primeiras experiências feministas da cineasta Miranda July com vídeo; e demonstra, na análise do pesquisador transexual Paul Preciado, o papel que as instituições de arte europeias tiveram no surgimento da ideia de pornografia.

Fundadas em princípios universais profundamente transformadores – o direito ao prazer, à liberdade, à expressão, à comunidade e à diferença –, as lutas do corpo revigoram o mundo. Esperemos que a exposição censurada nos lembre que elas são mais necessárias do que nunca.

*Solange Farkas é Diretora e Curadora da Associação Cultural Videobrasil. Em 25 anos como curadora, tornou-se nome de reputação nacional e inetrnacional inquestionável. Criou o Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, evento que se tornou referência para a produção artística do Sul geopolítico. Foi Diretora e curadora-chefe do Museu de Arte Moderna da Bahia de 2007 a 2010.