A porta da cadeia: mulheres, drogas, juventude e favela

Por #AgoraÉQueSãoElas


Por Pamela Souza*
Tenho lembranças vagas da época em que minha mãe me levava pra visitar meu “pai” em Bangu 3. Eu era muito pequena, e ela me contou que eu sempre fingia dores nas pernas para não andar até a porta do presídio. Lembro que da entrada do portal de Gericinó até o B3 era chão – aliás, barro, muito barro. Naquela época não tinha ônibus pra levar até os últimos pavilhões.

Imagina quando o sol de Bangu resolvia aparecer? Nem Deus ajudava, porque também não aguentava o calor.

Minha mãe tinha que fazer comida na madrugada pra conseguir chegar lá fresquinha, caso a gente conseguisse entrar cedo. Senão, a comida estragava ali mesmo e nem entrava. Eu não sabia o que era pior: ficar sem comer ou comer a comida toda revirada, que os Desipes (os “agentes penitenciários”) reviravam com a mesma colher com que revistavam a vasilha das outras milhares de mulheres que chegavam.

Outra coisa de que me recordo é da revista íntima, a maior das violações e humilhações que já passei em minha vida e pela qual essas mulheres passam cotidianamente. Essa parte dá dor de lembrar, era constrangedor.

Passei novamente na pele por todo esse processo há pouco tempo, depois de adulta, de forma igual, ou ainda mais dolorosa. Na fila da entrada de visita, algumas daquelas mulheres haviam me visto pequena, ainda daqueles anos 90. Me beijaram, abraçaram e recordaram histórias daquela época (histórias “de porta de cadeia”, como elas dizem). Outras eram mães de jovens amigos das favelas por onde passei, mães de amigos com quem estudei e de outros que minha mãe pegou no colo. Mães, esposas, filhas, netas, com filhos “lá dentro”, com filhos dos maridos no ventre, com netos dos filhos no colo e de alguma forma, todas, mães de alguém.

Todas as vezes, eu ficava ali, atordoada, ouvindo as histórias, os lamentos, o desespero e o choro daquelas mulheres na fila à espera. Enquanto isso, minha mãe berrava para eu não dar mole com as “sucatas” (as comidas que levamos pra comer e deixar pra eles lá dentro, como lamentavelmente é chamada), porque correríamos o sério risco de sermos “forjadas” com algum papelote de drogas e sairmos dali presas. Minha mãe era neurótica com isso.

Tinha dias que dava vontade morrer. Outros de gritar até as tripas saírem pra fora. Outros de abraçar todas aquelas dores. Você não precisava ser um especialista pra ver a dor naqueles semblantes. Era como um véu: qualquer um via e sentia.

É um déjà vu eterno. Cada dia ali é igual. As horas lá dentro se recusam a passar. Ainda que você ame muito aquela pessoa, você quer sair dali correndo. É torturador. Tinha dias que eu não conseguia parar de chorar, saía lá de dentro pior do que entrava. Saía como se tivessem colocado todo o peso do mundo em minhas costas – físico, mental, espiritual. Eu pesava o peso do mundo.

Pensa. Levanta cedo. Não dorme. Arruma os filhos, netos. Faz comida de madrugada. Leva bolsa. Dorme em fila. É violada, humilhada. Pelo mundo, por quem ama. Em casa, trabalha, se vira, “dá jeitinho”, sustenta filho, neto.

Quem são os encarcerados mesmo? Quantas grades precisam para encarcerar uma mulher?

Estar lá, para essas mulheres, não tem nada a ver com opção ou escolha. Tem a ver com raça, gênero, dominação, violência, machismo, desigualdade e injustiças.

E tem a ver com a guerra às drogas, que encarcera e mata nossos filhos, netos e maridos, e que cada vez mais leva algumas de nós junto. Em nome dela, o Estado justifica uma série de violações contra os moradores de favelas e periferias que pesam, sobretudo, nas costas das mulheres negras e pobres, que ficam com a dor da ausência e com o fardo da sobrevivência.

Ficamos sempre com o ônus de tudo que tramam contra nós. Nossas mãos constroem e embalam o mundo com a couraça da coragem e ainda assim nos negam o lugar desde sempre nosso, construídos ao custo de muito luta.

Lutamos quando precisamos, mas antes disso lutamos para permanecer vivas. Esse já é nosso maior ato de resistência.

*Pamela Souza tem 28 anos, é estudante de pedagogia e moradora do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. 

Há 600 mil pessoas encarceradas no Brasil. Dessas, grande parte está presa por conta da guerra às drogas. Nós últimos anos, o número de pessoas presas por tráfico de drogas aumentou exponencialmente – especialmente, entre as mulheres.

Presas ou não, são as mulheres – sobretudo, as mulheres negras e pobres – que mais sofrem as consequências do encarceramento: têm de lidar com o sofrimento da ausência e da solidão enquanto lutam pela sobrevivência.

Esse relato foi escrito por Pamela Souzza, moradora do Jacarezinho. Junto a outros 12 jovens de várias favelas e periferias, Pamela criou o Movimentos, grupo que pretende discutir os impactos da guerra às drogas dentro e a partir das favelas. Para saber mais sobre as ações do Movimentos, acesse: www.movimentos.org.br.