Reputação Elástica

Por #AgoraÉQueSãoElas

 

*Fernanda Young

 

Já disse algumas vezes, e nisso acredito tanto, que poderia tatuar: honestidade e higiene não têm variantes. Não existe uma pessoa mais ou menos honesta, ou mais ou menos limpa. Sendo que no segundo caso, diante de circunstâncias adversas, podemos até aceitar um certo descuido; mas não serão aceitos lapsos que desculpem um desonesto.  

Por que começo este texto com essa reflexão? Como pensadora, observo uma época extremamente complexa, já que o que é o fundamental para uma sociedade parece não fazer sentido algum. Fui educada a não abrir mão desse fundamental, e, a partir dele, pude construir todo o resto. E nesse resto, incluo a minha obra: tenho 13 livros publicados, inúmeros programas de televisão, filmes e peças de teatro. Não acho cabível me apresentar aqui, acreditando que ninguém tenha necessidade de saber quem eu sou. E a bem da verdade, adoro ser desconhecida (acho ridículo alguém se achar famoso, mesmo sendo muitofamoso).

Sempre que sou parada por leitores, faço questão de saber o nome deles, afinal, estamos sendo apresentados naquele instante. A pessoa é o que é em sua simplicidade, mesmo que ela seja excêntrica, exuberante, múltipla; quando digo simplicidade me refiro ao resumo básico da existência, sem blá blá blá esotérico ou filosófico: nascemos, sofremos, amamos, fazemos merda – literalmente ou não -, acertamos, caímos, levantamos e morremos. Pronto, é isso. No meio disso, a gente inventa umas firulas, coloca uns badulaques, faz umas gracinhas, para disfarçar o fato de que estamos todos indo em direção à morte. Uma pena que sejamos educados a negar a morte. Aceitá-la faz com que o caminho seja bem mais interessante, creio que eu tenha essa capacidade. Não sei porque, talvez por ter sido uma criança muito frágil, e ter vivido acamada. Mas isso não justifica, pessoas perdem entes amados, bem jovens, e não entendem que o segredo consiste em sonhar. Sonhar, não para negar a morte, mas para preencher a vida com abstrações, que quando recebidas com disciplina e destemor, tornam-se  realidades. E eu sonhei muito, sempre sonhei. Sonho muito. É nesse exercício que esboço o meu trabalho. Assim que me casei, há quase 23 anos, Alexandre notou que antes de dormir fico muito tempo quieta pensando. Um dia perguntou: “O que você tanto pensa?”. Respondi: “Em vestidos”. Então, se posso ter o vestido que sonhei, terei; se ele não existir, desenharei e tentarei fazer.  

Tudo isso para dizer que não admito que desrespeitem os meus sonhos! Sonhar custa caro demais. Realizar sonhos custa mais ainda. Manter esses sonhos, mais e mais ainda. Fui desrespeitada em 2015 ao ser agredida por meio do Instagram, por uma pessoa que usava um perfil falso. Dizia que eu era uma vadia lésbica, que tinha entrado no meu perfil para bater uma punheta, e que sairia como entrou, com o pau mole (era algo assim, só que pior). Ainda insistiu na agressão ao explicar o motivo de sua decepção e afirmar que eu só postava bichas e bordados. Fotografei o post com a agressão e repostei. Naquele mesmo dia, já tinha recebido outras mensagens agressivas, pois era um dia de manifestação contra o governo, e eu disse que iria “para a rua”. Muitos perguntaram se eu ia rodar bolsinha, outros disseram que eu era burguesa reacionária porque trabalho na Globo. E aqui, não para me justificar, mas como exercício de análise político-social, cabe esclarecer que não tenho partido, ou citando Cazuza: “Meu partido é um coração partido”. Apenas exercito o meu direito de manifestar o meu descontentamento. Pude atestar que existem pessoas que atuam de forma grosseira e ameaçadora, justo para que “aquelas que têm voz” se calem.  Que saibam, isso não é uma observação persecutória da minha parte. Fui ameaçada algumas vezes apenas por sustentar as minhas opiniões. Dizer o que se pensa, infelizmente, se tornou cansativo e até assustador, em dias como os de hoje. Essa provação é, justamente, para que se desista. Só que desistir é mais fácil. Contudo, nunca foi uma opção para mim.  E me calar era o que o agressor, naquele domingo de 2015, pensou que eu faria após ler o seu comentário em meu post.

Amigos me disseram para eu deixar para lá. Fosse porque achavam que eu iria me expor, ou porque iria me cansar. Duas coisas que não temo. Não roubei, não matei, não estou fedendo, por que iria me sentir exposta? E me cansando estou desde que nasci. Principalmente quando me deparo com pessoas burras. Sim, BURRAS! Porque uma coisa é ser ignorante – eu sou muito ignorante em uma série de assuntos, graças à Deus, e inclusive tenho ainda muito o que conhecer. Ignoramos aquilo que não conhecemos. O burro conhece e insiste em agir como se a sua verdade fosse absoluta, acima da razão, da ciência, das mudanças que constantemente ocorrem, transformando tudo o tempo todo, e… Um dia perceber que o que você acreditava é uma grande estupidez – como isso é lindo! Ufa, que bom sair da burrice, expandindo o elástico da percepção.

Sempre usei essa expressão ao me referir ao exercício de pensar – “o elástico da percepção. Por isso a arte,  por isso a poesia, por isso a rebeldia. E também por isso resolvi buscar a identidade do agressor, porque ignorar a potência do mundo virtual como meio de agressão, assédio, bullying, é não saber se defender. Tudo deu trabalho, custou dinheiro, mas conseguimos. O uso desse meio para ferir deve ser encarado com seriedade. Terão todas as mulheres agredidas a mesma resistência que eu tive? Os meios de se defender? Sim! Devem ter! E se eu puder inspirar alguma, já terá valido a pena. Porque me senti ferida ao ler o que li. Me feriu ver o susto da minha família, dos meus seguidores, dos meus amigos. Senti medo, senti vergonha, mas me defendi. E agora posso fazer o que queria: expor o agressor.

A vítima é educada a ficar quieta, como se a culpa fosse dela. “Eu que provoquei”, “eu sou a culpada”, “eu não devia ser como sou”, “eu não mereço respeito”. Tenham certeza de que esses pensamentos permeiam a cabeça de todas nós, porque somos educadas a realmente temer o agressor caso sejamos livres, belas, “loucas”, sensuais… Raspei minha cabeça por 11 anos e precisei ter filhas, para entender o que eu queria com aquilo: excluir o feminino. E sei que ficava bonita, sei que posso raspar a qualquer momento de novo, pois gosto muito de mim quando fico mais masculina, mas hoje uso a minha androginia com prazer e segurança. Mas eu queria disfarçar alguns ditos atributos físicos, para não “provocar”; assumo ter ficado mais desbocada para que não notassem a minha delicadeza. No entanto, hoje tenho coragem, segurança, consciência e sanidade para dizer: EU SOU DELICADA!  E isso não pode me fragilizar. EU SOU BONITA! Da maneira que eu sou, com a idade que tenho. E isso não pode me fragilizar!  EU SOU GOSTOSA. Às vezes mais magra, às vezes mais gorda. E isso não pode me fragilizar.

O agressor que usou a covardia do anonimato, que me assediou verbalmente, me insultando, chama-se Hugo Leonardo de Oliveira Correia, mora em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.  Eu pararia esse longo desabafo aqui, caso a questão tivesse, enfim, sido encerrada. E juro que era o que eu gostaria. Gostaria de escrever sobre poesia, sobre humor, sobre a estrutura de um romance. Adoro ser entrevistada a respeito dos meus programas que estão no ar. Posso dar a minha opinião sobre a situação nacional, sobre Trump. Ando especialmente indignada com o que estão fazendo com os usuários de crack. Isso também é fruto da esbórnia administrativa deste país tão sacaneado. Meu coração sangra quando me deparo com um “nóia”, pessoas se transformando em seres híbridos, cinzas e confusos, conteúdos de continentes feitos de cobertores de lã. Não consigo admitir a miséria em um país tão rico. Como ensinar filhos a serem honestos, se a mãe/nação rouba descaradamente? Eu choro. E escrevo. Mas não encerro este texto aqui. E para falar sobre o que me impede de estar fazendo algo mais singelo nesse momento, como brincar com os meus filhos ou fazer escova no cabelo, preciso de mais uns parágrafos.

Ao ganhar a causa contra o agressor, também recebi uma “lição de moral” do meritíssimo juiz Christopher Alexandre Roisin da 11ª Vara Civíl do Foro Central da Capital de São Paulo. Segundo o excelentíssimo juiz, o valor estipulado como indenização por ter ganhado a causa de danos morais contra Hugo Leonardo de Oliveira Correia, deve ser de R$ 5.000. Este valor, que não cobre os custos que tive, foi estipulado diante do fato de eu ter posado nua, e na sequência dessa observação obsoleta ao caso, ele afirma que eu tenho uma REPUTAÇÃO ELÁSTICA. Continua ele: “Uma mulher com tantos predicados como a autora afirma possuir deveria demonstrar, porque formadora de opinião, um pouco mais de respeito. Há valores morais que devem governar a sociedade e que, no mais, muitas vezes, nos dias que correm, são ignorados em prestígio a uma pretensa relatividade aplicada às ciências sociais, geradora do caos atual”.

O excelentíssimo juiz acredita que gente como eu provoca o caos social com a minha reputação elástica? Será porque usualmente me expresso mostrando o dedo do meio, que até emoji tem, de tão tolo que é? Ou será porque posei nua? E ele cita virtudes gregas, que provavelmente acha muito necessárias para uma mulher, dizendo que elas devem ser enaltecidas. Mais ou menos diz: “Olha, você posou nua, fala palavrão, mostra o dedo do meio. Acha que é alguém, mas não tem os predicados para ter opnião, porque entre o oito e o oitenta, tem um equilíbrio grego. Como você causa muito, sossega o facho e toma esses cinco mil, que é o que você merece”. Ou seja, o agressor tinha razão em me agredir? Eu poderia trabalhar de viver nua, isso não destitui o crime cometido. O que ele sabe sobre a minha reputação para que se justifique essa análise? E mesmo se ela for tão “elástica” – o quanto a sua criatividade pode inspirar -, o que isso tem a ver com a violência que sofri? É a teoria de que a minissaia instigou a dedada?

Desculpa, meritíssimo, por eu realizar os meus sonhos criando os vestidos com que quero cobrir o meu corpo. Desculpa por eu despi-los como manifestação daquilo que creio ser arte. Não é minha culpa você não querer saber o que enxergo e conto. É a minha arte, são os meus “vestidos”. Não vou deixar de sonhar com um mundo melhor porque atualmente vivemos entre ladrões de sonhos, fardados ou não, armados ou não, com mandatos ou não. Eu realmente não tenho medo. E irei recorrer.

 

*Fernanda Young é escritora e roteirista