Uma outra história

Por #AgoraÉQueSãoElas

*Por Ana Teresa Derraik Barbosa

 

Hoje acompanhei o percurso de uma paciente ao dar entrada na nossa Maternidade. O objetivo era avaliar a qualidade da linha de cuidado que estamos dispensando a nossa clientela em tempos de crise. Esperei na recepção a primeira paciente a chegar. Fui até ela, me apresentei, pedi licença e após o seu consentimento, grudei nela. Roberta era seu nome. Tentei não conversar muito, queria apenas observar. Ela estava muito apreensiva quanto a possibilidade de não realizar laqueadura tubária.

Roberta tinha 27 anos, estava na quinta gravidez e cesariana. Seu primeiro bebê havia nascido morto, quando ela tinha 15 anos e acabara de fugir de um abrigo onde sofria maus tratos. Quando me dei conta, já havíamos engrenado o maior bate papo. Pedi licença mais uma vez e com um providencial smartphone gravei um pouquinho do que ela me contou. Moça de sorriso meigo, preocupada com os filhos pequenos que tinha deixado em casa, Roberta me emocionou. Uso trechos do relato que ouvi para saudar a todas as mulheres, principalmente aquelas em situação de risco (são tantas!!) que têm nas reinvindicações da pauta feminista a esperança de conquista de um direito básico, a autonomia ao próprio corpo:

“…quando fui para o abrigo eu tinha 6 para 7 anos, minha mãe e meu pai bebiam. Era eu e mais 5 irmãos. Minha irmã morreu em casa e no laudo deu fraqueza, pneumonia e maus tratos. Aí a outra ficou doente e morreu no hospital. Os vizinhos denunciaram, o conselho tutelar foi lá, parou uma kombi e levou a gente. Com 13 para 14 anos eu fugi. Lá era melhor um pouco, mas a gente era muito maltratado, não por todos, mas tinham os que batiam. Um rapaz lá mexeu no meu irmão, abusou dele, mas fora isso era bom, faziam exames, a gente estudava, batiam muito. Meu irmão mais novo tinha um mês, era bebezinho e era eu que cuidava dele. Ficava comigo o tempo todo, a gente ficava numa sala, eu que lavava fralda e tudo. Minha irmã tinha problemas de vista e botaram óculos nela, em termos foi bom, se não maltratassem tanto eu ficava lá por muito tempo. Meu irmão mais novo tinha uns dois anos e rasgou um saco de açúcar, a diretora esfregou o açúcar na cara dele até sangrar. Eu via isso e ía para cima, aí eu apanhava no lugar deles.”

“…depois que eu fugi não tinha lugar certo. Aí comecei a curtir baile e a usar muita coisa, maconha, pó, loló, usava coisa que nem sabia o nome, conheci um menino e engravidei, não sabia nem quem era, fiquei lá com ele, me perdi e engravidei. Sempre lembrava do que eles me diziam que se eu engravidasse antes de ser maior, eles íam tomar meu filho e botar lá de novo. Eu não queria, comecei a tomar um monte de remédio para tirar, minhas amigas me levaram numa mulher lá no alto. Era tudo sujo. Ela queria fazer a sangue frio, não tive coragem. Sou medrosa. Desisti…. Fui numa festa, bebi, usei droga e acordei no hospital. O médico disse que tinha feito uma cirurgia em mim, que eu tinha perdido o neném. Não acreditei, achei que tinham tirado meu filho de mim, mas minhas colegas disseram que foi verdade.”

“… Casei com ele. Tive dois filhos. Ele me batia muito e queria fazer as coisas todo dia, não respeitou nem o resguardo, mas eu tinha uma casa, tudo certinho e a mãe dele era muito boa para mim. Sempre me defendia quando ele vinha para cima. Não quero mal a ele. É o pai dos meninos, mas depois que eu fui embora com as crianças nunca mais viu os filhos.”

“… Meu mais novo tem dois anos. É muito agarrado comigo, por isso fico preocupada aqui. Com medo que percam a paciência com ele porque ele chora muito quando eu não estou. Você sabe quanto tempo vou ficar internada? Você acha que eles vão me ligar? Não posso ter mais filhos, tenho que ajudar meu marido e me apego muito a eles. Só Deus para ajudar…”

Presenciei o parto do Bento, filho da Roberta nascido em nossa Unidade, conforme seu desejo expresso e documentado, ela teve a laqueadura tubária realizada no mesmo tempo cirúrgico que a cesariana.

Roberta é uma dentre as milhões de mulheres (sim, a ordem é de milhões) que já procuraram meios inseguros para abortar. Caso não tivesse sentido medo de passar por um procedimento “a sangue frio” e  tivesse sobrevivido a esse procedimento, Roberta poderia ter sido presa. Sim, presa. E quem cuidaria dos seus filhos? Provavelmente eles teriam o mesmo destino que ela um dia teve: ir morar em um abrigo do Estado.

No entanto, o procedimento abortivo, até o terceiro mês de gravidez, poderia não ser crime em território nacional. É o que solicita a ação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal que pede revisão do Código Penal. E aí, ao invés de se submeter a um procedimento clandestino, inseguro e a sangue frio, Roberta procuraria um serviço de saúde, receberia informações e aconselhamento sobre interrupção da gestação, ou não. A diferença fundamental: ela decidiria. Sobre sua vida e a de seus filhos já nascidos. Ela decidiria sobre se pode, ou não, ser mãe novamente. Ela decidiria sobre como cuidar da melhor maneira dos filhos que já pôs no mundo. E seria encaminhada para serviço de pré natal ou de aborto legal, conforme sua vontade e direito de autonomia, previsto na Constituição.

E aí, estaríamos escrevendo uma outra história…

 

*Ana Teresa Derrraik Barbosa é obstetra e diretora do Hospital da Mulher Heloineida Studart.