Contra Hierarquias Invisíveis: As Mulheres no Mundo Masculino das Ciências Exatas

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Lucília Borsari e Suzana Salem*

Somos professoras do Instituto de Física (IF) e do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo. Em nossas unidades na universidade, tanto entre estudantes, quanto entre professores, as mulheres são minoria. Como ocorre na Escola Politécnica (EP). Segundo os dados do anuário estatístico da USP, em 2015, a porcentagem de alunas de graduação no IF, no IME e na EP era, respectivamente, 20%, 26% e 19% e a porcentagem de professoras, 26%, 26% e 13%.

Existem razões de várias naturezas que explicariam esses números, – sociológicas, econômicas e políticas. Não pretendemos aqui analisar essas causas, mas sim desmistificar a falácia de que no mundo científico, usualmente considerado “civilizado” e “esclarecido”, não exista preconceito de gênero.

O universo das ciências chamadas exatas é machista. E o machismo do ambiente científico tem algumas particularidades, pois muitas vezes se manifesta por meio de códigos culturais considerados “elegantes” e “cultos”. Nesse território, respostas contundentes das mulheres costumam ser interpretadas como “agressivas”. Nas ciências exatas, as mulheres são “toleradas”, algumas até ocupam cargos de chefia, mas têm que provar constantemente que são merecedoras da posição que ocupam e que têm competência para exercer sua profissão.

São inúmeros os exemplos que ilustram a discriminação de gênero em nosso ambiente de trabalho: somos frequentemente interrompidas ao emitirmos nossas opiniões em reuniões de colegiados e comissões; poucas de nós atingem os níveis mais altos da carreira; as bancas de concurso são predominantemente masculinas; a questão da maternidade não é considerada como se deve e se torna um obstáculo para nossas carreiras.

Certa vez, uma colega da física experimental ouviu o seguinte “elogio” de um colaborador: “você é excepcional, trabalha como um homem”. A intenção era mesmo elogiar e ele não entendeu a indignação da colega. Em outra situação, uma professora não aceitou orientar uma estudante de pós-graduação alegando que não gostava de ter orientandas porque as estudantes casavam, tinham filhos e trabalhavam pouco. Ora, mas essa professora, em algum momento da sua própria vida, também fez pós-graduação! A discriminação contra a mulher está tão arraigada nesse ambiente que algumas de nós mulheres não têm consciência de que também agem de modo discriminatório.

O preconceito com mulheres na ciência não é recente, nem apenas brasileiro. A peça teatral Insubmissas: mulheres na ciência, de Oswaldo Mendes, ilustra, de forma contundente, os desafios e preconceitos que quatro mulheres cientistas, que viveram em épocas e lugares diferentes, precisaram enfrentar para sobreviverem no mundo machista da ciência. São elas: Hipácia de Alexandria (370 – 415 d.C.), Marie Curie (1867-1934), Bertha Lutz (1894 – 1976) e Rosalind Franklin (1920 – 1958). Elas deram importantes contribuições ao desenvolvimento da ciência e, no entanto, são muito menos conhecidas que seus colegas homens.

Hipácia, matemática, astrônoma e filósofa, deu aulas na Universidade de Alexandria em um período em que mulheres não frequentavam o mundo acadêmico. Considerada pagã, ela morreu apedrejada em uma igreja. Marie Curie foi premiada por seus trabalhos em física e química, mas sofreu a intolerância moralista da época, tendo sido humilhada pela imprensa francesa e acusada se relacionar, após a morte de seu marido, com um homem mais novo e casado. Será que um homem seria tratado da mesma forma? Adolfo Lutz, pai da bióloga brasileira Bertha Lutz, é mais conhecido que sua filha. Bertha, ingressou no Museu Nacional em 1919 como professora e pesquisadora. Ela foi pioneira no movimento feminista brasileiro, tendo liderado a luta pelo direito de voto das mulheres e por igualdade de salário e direitos políticos entre gêneros. Rosalind Franklin foi uma mulher injustiçada. Ela foi responsável por importante pesquisa cujos resultados foram fundamentais à compreensão da estrutura do DNA. No entanto, três homens, James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins, receberam o prêmio Nobel por esse trabalho e o nome de Rosalind sequer foi citado na publicação.

Na peça Insubmissas, as quatro cientistas conversam sobre seus trabalhos em um diálogo imaginário fascinante, no qual compartilham suas dificuldades e os preconceitos que enfrentaram para viver num mundo de conhecimentos que foram apropriados pelos homens.

O preconceito contra mulher na ciência também é tratado no livro Hidden Figures, de Margot Lee Shetterly, que é base do roteiro do filme “Estrelas além do tempo”, atualmente em cartaz. No caso, o preconceito é duplo, de gênero e raça. O livro conta a história verídica de três matemáticas negras, Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, que trabalharam na NASA, na década de 50, como “computadores humanos”, antes da existência de computadores eletrônicos. O trabalho das três mulheres foi decisivo para os triunfos dos Estados Unidos sobre a Rússia na corrida espacial durante a guerra fria e, mesmo assim, elas foram discriminadas e são seu trabalho não foi reconhecido.

Contudo, as jovens que têm vontade de estudar ciências exatas não devem se intimidar. Estudantes e professoras que ousaram entrar no mundo masculino das ciências exatas sofrem um preconceito de tipo “esclarecido”, pois parecem ser tratadas com cordialidade e sem discriminação, mas na verdade são vítimas de machismo e desrespeito, subordinadas a modos de se relacionar que ocultam hierarquias invisíveis. Mas mulheres na universidade passaram a se reunir, a discutir, a trocar experiências e a se organizar em coletivos feministas que têm contribuído muito para nos trazer consciência sobre a profunda discriminação de gênero na universidade e nos meios acadêmicos.

Esses coletivos têm denunciado a condição da mulher na universidade, com a coragem, a firmeza e a determinação que a causa exige. Há de ser transformador. Acostumadas a resistir ao machismo, de coragem, firmeza e determinação, nós entendemos.

*Lucília Borsari é professora do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo. Suzana Salem é professora do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo.