“Filho, o mundo não é seu.”

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Patricia Froes*

Em maio de 2015, a filósofa francesa Elisabeth Badinter concedeu uma entrevista na qual abordava, como de costume, questões relativas ao mito do amor materno e ao diabólico culto à mãe perfeita. As questões me levaram ao mesmo lugar que seu livro, Um amor conquistado, havia me levado, mas trouxe um elemento novo aos meus conflitos como mãe. Em um trecho, ela falava sobre a importância de dizer às filhas meninas que o mundo é delas: “não importa o que digam, o mundo é seu, minha filha. Nunca duvide disso.”.

Eu sou mãe de um menino. Um bebê do sexo masculino, branco, abonado. Um bebê que come orgânicos, frequenta uma escola que prioriza o livre brincar e que nos altos de seus dois anos e meio já conhece mais de dez países da Europa e da Ásia. Ele que não me escute, mas o mundo é dele. A gente sabe que é.

Confesso que, de instantâneo, descobrir o sexo do bebê foi um alívio. Crescer não é mole, mas nascer menino facilita um bocado. Eu sei do que estou falando: eu sou mulher. Cresci seguindo o padrão, usando a mesma calça justa que as outras meninas, o mesmo cabelo alisado de escova, ouvindo as mesmas músicas. Cresci com medo também.

Aos 32, desempenho direitinho o papel que inventaram pra mim e vivo com a constante sensação de ser uma impostora. Lá no fundo, penso sempre que não tenho capacidade de desempenhar nem mesmo o meu trabalho, esse que desempenho há mais de 12 anos. Me sinto uma farsante que não merece nem a atenção que você aí do outro lado me dispensa neste momento.

Ser mulher é viver nestes termos. E meu filho homem, branco, abonado não passará por isso. Ufa. Ufa por que mesmo?

Para você, mulher mãe de menino, eu trago más notícias: você terá que mentir. Talvez doa um pouquinho, mas pega na minha mão e diz pro menino predestinado: “filho, o mundo não é seu” – essa é sua missão.

Não será suficiente ver seu corpo enlouquecer, limpar cocô, amamentar em livre demanda, fazer cama compartilhada, dar comida, dar amor, dormir quase nada, abdicar de tanto na vida. Não vai nem adiantar sair por aí empoderando outras meninas. Você vai ter que segurar a onda do seu moleque.

Fazer seu filho homem, branco e abonado perder privilégios é urgente.

A luta é inglória, mas mãe é um bicho beligerante. Você vai conseguir ser combativa todas as vezes em que alguém perguntar sobre as namoradas do seu menino de 12, seis ou até dois anos. Vai explicar mil vezes que não tem problema nenhum ele brincar de boneca, de fazer comidinha ou usar roupa rosa. Vai repetir obviedades ad infinitum. Vai ter que tomar pra si a preguiça do mundo e pensar pelos outros até que eles aceitem que chorar é coisa de gente. Não de menino ou menina.

É duro, mas você terá que ensinar ao rapazinho que os deveres em espaços privados são comuns a homens e mulheres, mesmo quando o mundo grita lá fora que a casa é responsabilidade exclusiva sua e espaços públicos são do pequeno príncipe que você carregou na barriga.

Além disso, você tem mais uma atribuição difícil: delegar. E o jogo é perverso. Ser a mãe idolatrada e inesgotavelmente amada muitas vezes é o seu único poder; é tentador tratar o amor do seu filho como domínio seu. Por favor, não caia nessa.

O papel do pai nesta missão é tão importante quanto o seu. É aceitável que se curta este troféu da admiração pela mãe na intimidade, mas você tem sim que deixar que o homem assuma todas as responsabilidades diante do seu bebê com febre. Você vai ficar com o coração na mão. Mas se seu filho não entender que aquele homem é tão capaz quanto você de cuidar dele, vai ficar bem difícil vê-lo cuidar de alguém lá na frente.

Temos que mudar o mundo; fazer dele um lugar onde seu filho homem, branco e abonado tenha que ralar muito pra ter muito. Desnaturalizar o seu mando do mundo.

Para isso, é fundamental que se repita sempre: o mundo é seu, mana. Não importa o que te digam, o mundo é seu. Nunca duvide disso. Mas é também urgente que a gente repita: filho, o mundo não é seu. E aquela moça ali na rua também não é. Nenhuma delas é e nem será.

*Patricia Froes é mãe do Lino. É documentarista e atualmente desenvolve o longa-metragem “Incondicional – O mito da maternidade”.