Uma Resposta para Titi Muller

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Antonia Fontenelle*

Esta semana me vi em meio a uma polêmica, desta vez sendo taxada de “MACHISTA”. Mais um título para a minha coleção. Pois bem, vou dialogar com a minha colega de profissão, atriz e apresentadora Titi Muller, em resposta à sua carta endereçada a mim, através desse mesmo blog.

Querida Titi, tenho 42 anos, sou pai e mãe, avó. Já tive marido com idade de ser meu pai e já tive marido com idade de ser meu filho. Fui e sou julgada o tempo todo, tenho pavor de rótulos e abomino o “achismo”. Tanto quanto abomino o machismo.

Te desculpo por ter me julgado e me chamado de “piranha” sem me conhecer, claro. Quanto ao termo “cu de bêbado não tem dono”: pesado, né? Eu sei. Um termo bem comum e bastante usado no Nordeste. Se você, de fato, viu a entrevista completa, você também viu que eu me refiro aos homens da mesma maneira ao dizer isso. E quando você me pede para não atrapalhar o movimento feminista eu aceito, de comunicadora para comunicadora. E reitero que não desejo atrapalhar o movimento. Sou parte dele.

Vamos entender melhor o significado da palavra feminismo. Feminismo: a luta por igualdade de direitos entre os gêneros em nossa sociedade.

Não acho responsável da sua parte fomentar a ideia de que eu alimento a cultura do estupro. Minha querida colega: se você e todas as feministas soubessem o quanto eu luto diariamente por nós mulheres.

Saí do sertão do Piauí aos 17 anos de idade, comi o pão que o diabo amassou. Várias vezes senti vontade de engolir esse pão com álcool até cair, mas minha autoestima e minha educação falaram mais alto. Meu amor próprio me perguntava: “e se você cair e não conseguir se levantar?”. Ou seja, se eu não me respeitar, quem fará isso por mim? Esta é minha maneira de lutar. Mas nossa luta é a mesma. É a de todas nós. E precisamos sim trocar, falar, ouvir – como você propõe. Para entender nossos jeitos de lutar e ser cada vez mais fortes juntas.

Enfim, muitas vezes, no calor de uma conversa, acabamos defendendo ideias que por fim se confundem. Sob a pressão de uma conversa pública em que tantas variáveis pesam e o ego fala tão alto, tudo isso é ainda mais frequente. A gente peca nisso! Peço perdão. As palavras confundem quem as pronuncia e quem as ouve. Mas nada disso serve como desculpa em um mundo que maltrata as mulheres, que relega a elas salários mais baixos, um país que apresenta a cada 11 minutos casos de violência contra nós. Essa é uma carta para Titi, mas também uma carta de desculpas a todas as pessoas que tenham se sentido ofendidas com as minha declarações.

Luto contra a cultura machista na qual fui criada, luto e repenso diariamente meus preconceitos diante do desafio de criar dois filhos homens que rompam as dinâmicas sexistas.

Com carinho,

Antonia

*Antonia Fontenelle é atriz e apresentadora.