O caso Thordis Elva: “Erraremos bastante enquanto farejamos a trilha certa”

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Letícia Bahia*

Em 1996, ele a estuprou. Depois de 8 anos de angústia, ela o procurou por carta. Corresponderam-se, ela da Islândia e ele da Austrália, por mais 8 anos, buscando desvendar as infinitas camadas de sofrimento inauguradas pela violência que ele cometera em 1996. E, 16 anos depois, eles se encontraram na África do Sul, ponto médio dos 8 anos de correspondência.

A reconciliação pitoresca é tema desta palestra TED, protagonizada pela islandesa Thordis Elva e pelo australiano Tom Stranger. Os 20 polêmicos minutos já foram assistidos por quase 3 milhões de pessoas. São, para dizer o mínimo, indigestos, e nos levam a repetir protestos contra alguns clássicos que, terrivelmente, nunca saem de moda.

O nó na garganta já atravanca a respiração com a fala inaugural da palestra: todas nós desejamos que a abertura fosse de Thordis, em uma expressão simbólica de que, ali, o mando era dela. Mas é Tom quem dá início aos trabalhos.

Os aplausos finais também amargam a língua. Será que se referem à trajetória heróica da islandesa? Serão meramente inércia de uma plateia que se comporta como manda o figurino, reação mecânica ao fim do espetáculo? Ou, como tememos, a salva de palmas é mais um caso da recorrente conivência para com abusadores sexuais, à semelhança do que se viu, por exemplo, quando Casey Affleck levou o Oscar de melhor ator apesar da coletânea de acusações de abuso sexual que pesa contra o protagonista de Manchester à beira mar?

Sim, há muito o que repudiar na exposição de Thordis e Tom. Mas se as críticas são as mesmas que temos repetido desde sempre, talvez a justificada raiva que nos leva ao repúdio esteja nos cegando para novos olhares que podem, talvez e apenas talvez, sugerir novos caminhos para um problema cuja resolução parece estar além do que os olhos podem alcançar.

Para expandir as possibilidades (infinitas) de leitura a respeito desse encontro esquisito, pode ser interessante deixar em suspenso, por alguns momentos, as opiniões e sentimentos a respeito deste homem, desta mulher e deste caso específico (aqui provavelmente encontraremos nossas velhas a absolutamente pertinentes críticas), para refletir sobre os caminhos usualmente percorridos para lidar com esse tipo de violência (quem sabe o que poderemos encontrar aqui?).

Em 2014, 43.950 estupros foram reportados no Brasil. A cifra é do sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP) e é a base de uma estatística avassaladora que detestamos repetir: a cada 12 minutos, um estupro acontece no Brasil. Como os números do SINESP só dão conta dos estupros reportados, é de se supor que, na verdade, um punhado de segundos já é o suficiente para que o relógio engula mais corpos violados. É alarmante. É urgente. É epidêmico.

E o que se faz, diante desses mais de 40 mil estupros, quando algo se faz? Temos nos dedicado intensamente a procurar a resposta para uma pergunta latejante: o que fazer com estupradores e como amenizar o sofrimento das vítimas? Fala-se em aumento de penas, em castração química, e alguns falam até em pena de morte. São respostas tentadoras, e é duro recusar a pergunta quando mais uma manchete nos apresenta outra Maria estraçalhada pela masculinidade tóxica que vige. É por isso que o caminho escolhido por Thordis é tão notável.

O crime de que ela foi vítima já está prescrito. De acordo com a lei islandesa Tom é um homem livre. Mas ainda há o que fazer: extrair desse e de outros casos lições que nos ajudem a fazer o que o sistema prisional tem consistentemente falhado em fazer, atuar preventivamente reduzindo os casos de estupro e outras formas de violência sexual.

Sim, é indigesto ver o australiano de belos olhos azuis discorrer sobre a culpa que ele alega ter sentido desde o estupro. Como não supor que as lágrimas são de crocodilo quando o escutamos dizer que sentiu culpa inclusive durante o estupro?

É difícil não o odiar, e talvez seja impossível não odiar o perdão concedido por Thordis. Não tem problema. Temos o direito de odiá-lo, mas é preciso que se reflita sobre o que pode haver na oportunidade de ouvi-lo. Ele, o espécime temido, aquele que com destemido pavor temos tentado combater. Como derrotá-lo sem conhecê-lo?

Na medida em que a gente suporte – e nem um milímetro a mais – é benéfico ouvir o que os Tom Stranger – e eles estão nas nossas festa e nas nossas casas – têm a dizer. É preciso que homens e mulheres se perguntem por que os homens estupram tanto (eles são entre 92% e 97% dos estupradores, diz o IPEA), por que estão transando conosco enquanto 21% de nós  relata sentir dor no sexo (ProSex/USP), por que dormem com suas parceiras mesmo quando percebem que elas não têm vontade, ou por que não percebem quando elas não têm vontade. E nós não vamos gostar das respostas, tanto quanto não gostamos do discurso de Tom.

Superar a epidemia de violência contra a mulher não precisa passar por uma palestra com seu estuprador, mas passa necessariamente pela educação sexual – algo pelo qual temos militado com insistência – e também por alguma abertura para conversar com homens. O “como” ainda precisa ser desvendado (o caminho de Thordis parece ter desagradado à maioria de nós). É preciso paciência (mais paciência), porque é certo que erraremos bastante enquanto farejamos a trilha certa.

*Letícia Bahia é psicóloga e Diretora Institucional da ONG AzMina.