“Mas eu não sou assim”: o poder do livro infantil

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Janaina Tokitaka*

Ainda que eu seja autora e ilustradora editorial, tenho certeza que nunca mais vou ler com a mesma atenção e intensidade que eu dedicava às minhas leituras na infância. Livros infantis são muito poderosos. A fantasia, a possibilidade de habitar cenários diferentes da minha realidade, os personagens carismáticos e situações improváveis típicos desta forma literária sempre foram muito importantes para mim e, talvez por isso, eu tenha escolhido voltar a habitar esse cenário ao mesmo tempo aconchegante e desafiador, dessa vez como criadora.

A responsabilidade é grande. Se reconhecemos o potencial formativo do livro infantil, entendemos que esses personagens ajudam a criança a entender quem elas são no mundo.

Não estou, com essa afirmação, sugerindo que protagonistas de livros infantis devam ser exemplares no pior sentido dessa palavra – inócuos, bonzinhos, obedientes, inocentes. Ao contrário: Não conheço ( ainda bem!) nenhuma criança assim e personagens desse tipo só fazem com que crianças saudáveis, agitadas e questionadoras se sintam desinteressadas ou, pior ainda, inadequadas. É, aliás, sintomático e muito triste que justamente as personagens femininas dos livros infantis obedeçam a estes estereótipos.

Não quero que minha filha, ao ler um livro infantil, pense: “É assim que meninas devem ser. Mas… Eu não sou assim!”

Entendo, como autora, leitora e mãe, que os melhores livros infantis são os que causam o oposto deste sentimento. Funciona para os adultos também – aquela sensação gostosa de reconhecer um lado seuabraçado ou alguma vontade oculta espelhada na página. Assombrados, pensamos, com um prazer inegavelmente infantil: “parece que esse escritor me conhece – esse livro foi escrito para mim!”

Quando esses sentimentos, desejos e vontades são recebidos pelo entorno social com certa resistência, o livro que trata deles com generosidade se torna ainda mais valioso. Livros que questionam abertamente estereótipos de gênero, por exemplo, ainda são poucos nas prateleiras separadas em azul e rosa das grandes livrarias.

Sobre a decisão de publicar livros com personagens desajustados e premissas pouco comuns, Thaisa Burani, editora do Selo infantil Boitatá, da editora Boitempo, diz:  ”É engraçada essa coisa de prospectar originais. Porque se ontem eu era a menina nerd que devorava um livro atrás do outro, hoje eu tenho que pensar não só nessa criança que amava ler como em todas as outras que (acham que) não gostam. E não há solução mais feliz do que encontrar um personagem esquisito, diferente, curioso, problemático, único – humano, enfim.”

Felizmente, há alguns exemplos corajosos de livros que respeitam esta premissa. “Tal Pai, tal filho” de Georgina Martins, fala, com muita doçura e sensibilidade, de um menino que deseja ser bailarino à contragosto das vontades do pai. O mesmo tema é tratado, com propostas e desenvolvimentos diferentes, por Tomie de Paola em seu clássico “Oliver Button is a Sissy.”, publicado em 1979. Em “O Fado, padrinho, o bruxo afilhado” Anna Claudia Ramos conta a história de um menino que resolve virar fado padrinho, afinal, porque não? É a mesma pergunta que Morris Mickewhite faz em ““Morris Mickewhite and the tangerine dress”: porque não brincar com o vestido de princesa cor de laranja, na hora da fantasia? A cor é linda, ele faz um som agradável quando se move, ele brilha, tudo nele é sensorialmente agradável para Morris.

Quando escrevi “Pode Pegar”, não queria que esta dúvida fosse sequer formulada na cabeça dos personagens do livro, um coelho e uma coelha, a princípio vestidos como manda o figurino: terno azul para o menino, vestido rosa para a menina. Na narrativa, se o coelho precisa de um sapato de salto para alcançar uma fruta em um galho alto de uma árvore, a coelha nem pisca e joga seus sapatinhos para o amigo, dizendo: “Pode pegar.” Queria que a brincadeira fosse completamente permissiva, positiva, sem sofrimento algum. Desta forma, no livro, é estabelecido que as escolhas de roupa dos personagens obedecem somente à dois critérios: puramente prático ou para agradar os olhos e servir de fantasia. O tutu cor de rosa de bailarina pode sim ser usado pelo coelho, as botas utilitárias pela coelha e os dois brincam muito felizes até que surge um olhar externo -adulto- para julgar a brincadeira. Mas o que aconteceria se a leveza com que as crianças brincam com o vestuário fosse transportada para este personagem adulto, que julga e proíbe? Se há uma moral e uma intenção neste meu livro de coelhos, é justamente esta. Um mão que se estende e se oferece, para fora do livro, como apoio ao leitor que estiver precisando: “Pode pegar.”

*Janaina Tokitaka é ilustradora.