E agora?

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Teresa Cristina*

 

A cena eu lembro muito bem: final dos anos 90, estávamos eu e o Grupo Semente em um almoço feito por Cristina Buarque na casa de sua mãe Maria Amélia, em Copacabana. Passamos a tarde inteira cantando e devorando o belo cozido feito pela minha xará. Dona Maria Amélia, ou Memélia, adorava esses encontros e soltava sua voz aguda, cantando e sugerindo canções. Lá pelas tantas, empolgadíssima, comecei a puxar sucessos de carnaval e ela cantou vários com a gente. Tudo ia muito bem até alguém entoar os versos de O teu cabelo não nega, de Ary Barroso. Memélia, com jeitinho, parou a batucada:

– Esse não, é racista e indelicado com a mulher.

Com aquela voz aguda ela foi declamando os versos e se indignando:

– “…mas como a cor não pega, mulata”, que horror! Quer dizer que se a cor pegasse ele não queria mais? Que horror, repetia ela delicadamente com muita indignação.

Já tive muita vergonha de admitir – hoje não mais – que já havia repetido aqueles versos inúmeras vezes e nunca havia parado para decifrar o que estava realmente cantando. Passei o resto da tarde envergonhada e nunca mais esqueci das palavras de Memélia.

Essas palavras me ajudaram a perceber o quanto atravessei canções sem dar a devida atenção às palavras que proferia, embriagada pelas melodias belíssimas, pelo arranjo bem feito, ou até mesmo pelo ritmo imposto. E foram muitas madrugadas na Lapa, ou na Tiradentes ouvindo versos mais ou menos assim:

“Se essa mulher fosse minha, eu tirava do samba já, já. Dava uma surra nela que ela gritava: chega!”

“Lá vem ela chorando, o que que ela quer? Pancada não é, já dei.”

“Mulher que nega, nega o que não é para negar.”

O primeiro é um samba de roda contagiante, que coloca o povo dançar e bater palma. O segundo foi o primeiro samba que a Portela desfilou, samba do compositor Alvarenga. O terceiro é de Vinícius de Moraes, conhecidíssimo, de melodia magistral. Isso é só um pequeno lote, tem muito mais. No samba a mulher já foi leviana, mascarada, fingida, pecadora. Já cantei todos esses sambas e entendi, com o tempo, que foram compostos por/para homens com o coração ferido.

Sim, porque a maioria dos compositores de samba eram homens. E na maioria dos casos a mulher sempre aparecia como vilã, destruidora de corações, o demônio em pessoa. Mas nem todos os compositores eram tão cruéis com a figura feminina. Dentro da obra de Ismael Silva, Assis Valente, Wilson Batista, por exemplo, tivemos a chance de ouvir uma voz que contasse o que também acontecia do outro lado.

Um belo exemplo é a resposta de Milton de Oliveira e Mirabeau à canção Pois é de Ataulfo Alves, onde o mineiro dizia que sua morena havia sido muito “valorizada” pela opinião publica e por isso resolveu lhe abandonar. O próprio Ataulfo gravou o confronto com a grande Carmem Costa onde ela dizia que a história não havia se dado bem assim:

Aqui você rirá dizendo a todos
Pois é, pois é, pois é
Quem sabe a quentura da panela
É a colher, é a colher
Chega o que ela já sofreu
Ele vocês já conhecem
E a morena sou eu.

No meu show cantando Cartola me deparei com a crueldade dos versos de Tive, sim onde o homem se vangloria de ter encontrado uma mulher bem melhor do que a atual e se desculpa dizendo que não a quer magoar com esse assunto. Resolvi a minha situação dando voz a essa mulher, no final dos anos 60, chegando para o marido e confessando que teve outro homem antes dele, sim. E melhor, também. A sensação de liberdade que sinto na plateia nessa hora do show é maravilhosa. Eu simplesmente adoro.

Falei de canções que fazem parte da minha formação musical e preciso lidar com elas, pois é necessário que esse diálogo exista. O que está feito, está. Não se pode apagar os sucessos de Leviana, Nega Dina, Pecadora. Podemos sim, nomear outras personagens que possam contar a sua história, seus pontos de vista. Como compositora de samba, se quero questionar o lugar da mulher em tantos versos sei que preciso começar fazendo a minha parte. Compositoras, vamos falar de nós. Eles já falam, já falaram. Nossa hora pode ser agora. E agora? Agora é que são elas!

 

* Teresa Cristina é cantora e compositora