O Problema dos Brancos

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Elisa Lucinda*

Como um monstro com mil tentáculos e uma perniciosa tumoração espalhada no corpo cultural do Brasil e na maioria dos países do mundo, o racismo recrudesce, cresce e se reproduz apesar dos avanços de cada nação ou de cada organização civil. Como cabe a um sistema, ou seja, se vale de um conjunto de funcionamentos, tal qual o machismo, o racismo, tão cruel quanto eficiente, campeia, e ainda não sabemos como deter suas letalidades: o crescente assassinato de mulheres; o crescente assassinato de negros. Nos dois sistemas a gente observa a profundidade de seus alcances quando vemos as próprias vítimas assumirem as razões dos seus algozes. Muitas mulheres ainda confundem com demonstração de amor o controle opressor do parceiro sobre seus passos, o ciúme excessivo, o domínio dele sobre suas decisões íntimas e pessoais como batom, acessórios e roupas, e algumas, quando os ” desobedecem” ou traem e são punidas, acham que mereceram tal castigo. Da mesma maneira, ainda há muitos negros, embora cada vez menos, cuja esfacelada auto estima, não autoriza a ocuparem seu bom lugar de direito na sociedade, e esses mesmos acham que ser branco é ser mais bonito e melhor.

Fiz a comparação e, pensando bem, o que une as mulheres de quaisquer etnias e os negros na história da opressão é que os dois, reservadas as proporções, por muitos séculos, viveram como escravos. A mulher como moeda de troca, valorada por dotes, prometida como uma mercadoria, violada sexualmente e frequentemente  assassinada pelo seu dono; e o negro viveu o escândalo do holocausto crudelíssimo que o mundo não chama de holocausto, mesmo tendo sido sangrenta e mortal a grande temporada (quatro séculos) de tortura e maus tratos por uma soberania branca. Uma merda. “Estamos num vale de lágrimas” para citar Adélia Prado. A normalidade da injustiça sistêmica diária em todas as áreas sobre o povo negro é a nossa mais perigosa ação diária. Neste momento, muitas crianças estão sendo educadas racistamente. Graças à exclusão constante , por conteúdo, a maioria das crianças negras está em escola pública e, de maneira geral, a frágil qualidade do ensino que recebe, se equipara a comida de pior qualidade que muitos patrões oferecem aos seus empregados, prolongando para os dias de hoje os velhos e injustíssimos ensinamentos da  casa grande e da senzala.

A ideia de uma democracia racial no Brasil é uma das ilusões mais perniciosas de nossa violenta idiossincrasia. Por anos acreditou-se que não havia racismo aqui, mas nossa história é testemunha da triste verdade. Afinal, está na nossa origem a dizimação sem precedentes de índios e negros. Como não entendemos isso direito, há quem ainda admire aquele quadro dramático da primeira missa no Brasil. Aquilo é de dar dó. Imagine os portugueses catequizando um pajé!? É surreal. Mas, não sabemos nossa gênese direito. Vivemos  aos trancos e barrancos engolindo narrativas tendenciosas escritas pelos que desfrutam até hoje dos privilégios da concentração de poder e de renda. Muitos “mestiços” brasileiros empinam o nariz para citar sua ascendência paterna ou materna: “Minha vó veio da Sicília, meu avô era de Mônaco” e na parte em que deveriam também dizer: “Minha avó veio do Congo, nação que foi no passado, até a chegada de sua violenta colonização, uma referência em diplomacia internacional!” Pois em lugar disso, dizem: “Por  parte de mãe tenho um pezinho na cozinha”. A negação da história real das nações que foram escravizadas gerou a perversa distorção na qual interpretamos, sem querer, que toda a África nasceu na senzala. E isso  só aponta para um imaginário onde devemos atuar através da educação e da arte. Como não se vê como racista, a classe dominante frequenta igrejas, templos, e outras unidades de “evolução espiritual” e seguem sendo racistas diariamente sem que isso se configure como “pecado”.

Tivemos enfim a regulamentação do trabalho da empregada doméstica e houve quem bradasse contra. Para muitas madames é mais do que natural uma senhora despertar às 6 horas da manhã, para despachar os filhos dos patrões que vão para a universidade, preparar o café de toda família, seguir o dia inteiro emendando tarefas, e, às 11 da noite, ainda estar acordada para botar a janta do chefe quando chega. Para muitas madames é um acinte pagar hora extra por isso; afinal, o quarto sem janela em que ela mora, praticamente, é de graça. Não nos iludamos, são as lições da casa grande, por isso não se estranha.

Cabe ao cinema fazer aquele filme épico, tipo “Em nome da rosa, ou Em nome do Pai”, mostrando toda a saga do tráfico de escravos, a mortandade e a loucura dos navios negreiros, toda cultura da tentativa do extermínio dessa cultura. Cabe à escola. Cabe ao teatro. Não conhecemos nossa história, não visitamos as Áfricas , tudo que sabemos ainda vem das três únicas páginas, incluindo grandes espaços de todas ilustrações onde os livros didáticos contam “toda” a história do negro no Brasil. Ao mesmo tempo, a educação formal somada às outras artes tem que dar conta de desconstruir esta sólida utopia do eurocentrismo que mora na cabeça do que se entende como povo civilizado e autoriza tantos horrores.

A história do helicóptero “abatido” sobrevoando a Cidade de Deus, é mal contada, parece mesmo de uma cidade sem lei que defenda o povo. Pelo que li ,não há marcas de tiros nos corpos dos policiais e nem na aeronave. Então alguma coisa carece de investigação. O Rio de Janeiro está falido, não tem dinheiro nem para abastecer as viaturas, fazer a manutenção nas ambulâncias, será que tem dinheiro para manter o helicóptero em dia? E como pode, sem ter certeza investigativa, ocupar a Cidade de Deus assim? Os inocentes não dormem, são muitos e têm medo. Vivem nessas comunidades, trabalham arduamente nos restaurantes, nos automóveis, nas mansões da zona sul, para terem uma vida digna em seus lares  e territórios. Mas são todos suspeitos,  sofrem revistas abusivas, acordam com a imagem trágica de corpos eliminados e deixados no meio da rua. Ninguém precisa ir lá para saber que é preta a cor da maioria avassaladora das vítimas. O policial também mora lá e também sofre, e também morre, e está igualmente confuso sobre o seu papel no país. Mesmo ele sendo também preto, quando estuda na polícia ainda não aprende a igualdade. E há, embora não dito na prática da segurança pública brasileira, uma autorização para abordar abusivamente um cidadão negro (A carne mais barata do mercado ainda é a carne negra). Um jovem negro da favela vale menos que um jovem branco do Leblon. Os mesmos olhos cegos que não viam a mortandade nos pelourinhos e nos navios, não se importa, e não se interessa, e não vê o que acontece hoje nas favelas diariamente.

A sorte é que existem mais blogs como esse, mas gente ligada na vigilância civil e o assunto como o de Amarildo, por exemplo, não passa mais escondido de nós. Apesar deste artigo que escrevo agora, muitos brancos ou não negros afirmam não saber do que estou falando, quando eles têm um grande problema nas mãos. A violência doméstica é problema de quem? Dos homens que são violentos com as mulheres. Ou seja, do machismo. Certamente há muitos homens envergonhados por saberem que seus iguais fazem estas merdas atrozes por aí e matam as suas companheiras, que não aguentam rejeição, é uma preocupação do homem, portanto, uma questão que o masculino tem que resolver. Concorda? Da mesma maneira, a homofobia é uma questão dos héteros porque é feito da intolerância heterossexual com a população homoafetiva, e nem vamos falar aqui de hipocrisia para não aumentar o texto. Têm sido as vozes heterossexuais, entre essas, essa que voz fala, fundamentais para o avanço do tema na sociedade. As relações entre pessoas do mesmo sexo ganharam narrativas que geraram mais respeito porque, ao extrapolar os portões dos nichos deixou de ser uma assunto de que para ser uma questão de toda sociedade. Ora, se assim com tais desigualdades, por que seria diferente o racismo a maior de todas? Mas os brancos tem um problema para resolver. Os que vêm vergonha da ignorância de seus pares, dos que insistem em ainda preservar a escravidão no Brasil, espero que se manifestem para que nós não os confundamos com o racista. Agora mesmo eu tive uma discussão com a minha esquipe da peça Adélia Prado porque sem que se percebessem criaram um figura do diabo de black power e cabelo rastafári (matéria que também virava o rabo. Protestei. Conversamos. São pessoas legais e ficaram surpresas quando perceberam que não perceberam antes que estavam cumprindo um estereótipo, só quando sugeri que o diabo usasse um quipá é que elas direcionaram do que estávamos falando ali.

Eu te peço, meu amigo não negro, observe as suas relações sociais, de trabalho, de amigos, e vê se muda de mente o que você está ensinando seus filhos sobre isso. Se os seus empregados, todos eles são negros e nenhum amigo é, e ninguém na sua casa, na sua família alguém casou-se com alguém afrodescendente, por que a sua criança irá acreditar em outra via de felicidade. É hora de identificar os danos da herança escravocrata no Brasil que está devidamente almagamada na educação da maioria das narrativas brasileiras. Jornalistas brancos, atores brancos, os ladrões ricos da Lava – jato são todos brancos, (graças a Deus!).

Em suma, o dramático domínio branco nos meios de comunicação, nas ficções , na imagens dos livros infantis, nas narrativas oficiais do ensino brasileiro mostra a metástase do doente corpo sociológico da nação tomado de racismo em todos os órgãos. Fechar-se em condomínios, blindar os carros, só tira a consequência do racismo da vista do cidadão. É urgente que assumamos a nossa participação frequente na continuação do racismo brasileiro. Se eu fosse branca, eu teria muito vergonha se pensassem que eu sou racista.

*Elisa Lucinda é poeta, atriz, cantora e jornalista.