Umidade é meu nome

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Noemi Jaffe*

 

 

Uma intuição súbita me fez pensar: todos os seres humanos são mulheres e o homem é que deve ter vindo da mulher, não o contrário. E é por isso que ele a teme. Não quer voltar a ser mulher.

Somos todos líquidos, viscosos, porosos, prenhes de fluidos e de sujeira. Todos temos sangue, escarro, saliva, suor, bile, urina, corrimentos, fezes. Nascemos cobertos de uma gelatina grudenta, depois de passar meses mergulhados numa água espessa. Todos mamamos, deleitando-nos fundidos com a boca no seio de uma mãe fértil, de onde chupamos um colostro leitoso e morno. Crescemos sugando areia, plástico, caca de nariz, lambendo restos de comida, acariciando pelos de cachorro, enfiando coisas estranhas na boca, chupetas, mamadeiras, vidro, meleca, pó, pano, cobertor, guardanapo, comida, comida, comida. Somos o que comemos e o que queremos comer e passamos a vida querendo preencher-nos de sabor e prazer pela boca e por todos os orifícios do corpo. Viver é querer preencher os orifícios. O resto fazemos para conseguirmos preenchê-los sem culpa.

A vida do homem ocidental, burguês e branco é uma tentativa, desde pequenos, de escape do seu lote líquido. Desde sempre, ele está fadado à secura, à higiene, à assepsia. Fechar os poros; cortá-los; aparar os buracos, as arestas; moderar a comida e a bebida; fechar a boca; passar panos limpos, toalhas; cobrir os fluidos com camisinhas, luvas, máscaras, vendas; afastar-se da visão enojante de fluidos escorrendo, vazando, gotejando; munir-se de encanadores, psicólogos, papeis higiênicos, desodorantes, aparadores, bombeiros, máquinas fotográficas, regadores, galochas, botas, tênis, casacos, indústrias de proteção contra a presença grudenta e molhada de tudo o que é líquido; remédios, guarda-chuvas, qualquer coisa que nos proteja contra as bactérias que sempre proliferam na umidade. Muitos psicólogos, na verdade, são um tipo de secador e vencer na vida é, em grande parte, secar-se para obter o sucesso, que é limpidamente enxuto.

Mas acontece que nada, como as mulheres, é tão líquido.

Somos úmidas, espalhamos umidade, vivemos nela, nela nos espalhamos e sofremos, ela nos define e nós a definimos. Quem é você, mulher? Umidade é meu nome, nela habito e por ela as luas me habitam, assim criando os meses, os signos, as marés e os humores. Os humores – sinônimo latino de umidade – são femininos. Também as marés, as luas e o verão. O lodo, o pântano, o mangue, a praia somos nós, parturientes molhadas, escamando e esguichando bolsas, peles e bebês.

O homem nasce de uma mulher. Mais. O homem nasce mulher, coberto por uma e ainda nela envolvido. Mas logo dela vai se separando, aos poucos mas também violentamente, logo atrelado ao seu destino seco, pelo pai, a família, os médicos, que o apontam orgulhosamente para o alto e para a frente, onde tudo é limpo e branco, afastando-o dos buracos quentes e viscosos de onde ele veio e para onde ele iria feliz, caso não o tirassem tão cedo de lá.

O homem teme voltar a ser mulher, que é o que ele gostaria. Habitar de novo o invólucro protegido e molhado do útero, sugar o líquido quente e macio do seio, chupar as substâncias gostosas que escorrem e vivem no chão. Com muita frequência ele retorna a esse ambiente, nele penetrando o falo duro, mas também carregado de visco e lá jorrando o líquido de que ele se orgulha, mas que lá resta e do qual ele se livra rápido. Do falo mole ele não toma conhecimento, do membro flácido e enrugado ele nada que saber. Só a mulher dele se afeiçoa, acariciando-o compassiva.

Homens, vocês são mulheres. Amem o líquido, a umidade, a viscosidade e a sujeira de que vocês são feitos. Habitem dentro de seus buracos, entrem para dentro de sua mornidão pastosa e liquefaçam-se melados, felizes na temperatura grossa do seu calor.

* Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Publicou “Írisz, as Orquídeas”, entre outros.