A sociedade brasileira mudou, e o PMDB do Rio não viu 

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por #AgoraÉQueSãoElas

A derrota do candidato do PMDB, Pedro Paulo, que teve apenas 16,2% dos votos e está fora do páreo pela prefeitura do Rio de Janeiro, é evidência inquestionável da potência do movimento feminista brasileiro. As mulheres pautaram o debate público, falaram mais alto que a máquina e contribuíram de modo determinante para desbancar o candidato do atual prefeito. Estabelece-se um novo patamar na relação da nossa sociedade com o machismo e a violência contra a mulher.

A pré-candidatura de Pedro Paulo começou a ser aventada em 2015, ano do que tem sido chamado de Primavera Feminista. Em novembro, foi publicada a denuncia da revista Veja de que o pré-candidato havia agredido a sua esposa à época, em 2010. Pedro Paulo admitiu ter agredido Alexandra Marcondes uma única vez. Sua situação se complicou quando, dias depois, a imprensa revelou a existência de outro boletim de ocorrência, de 2008. Uma única vez é intolerável. Mas nem isso era verdade.

Pedro Paulo e a hoje ex-esposa vieram juntos à público. Ele tentou outra vez se explicar, argumentando: “quem nunca exagera? Quem não perde o controle?”. Todo casal se excede às vezes, afirmou. O circo de horror seguiu, Marcondes fez uma fala típica das vítimas de violência contra a mulher e dividiu com o agressor a responsabilidade pela agressão. Nessa nova versão, Pedro Paulo teria apenas se defendido. O governador Luiz Fernando Pezão afirmou à imprensa que era tudo fofoca e o problema deles era pessoal. Deu essa declaração dias antes do Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. Ignorava a data importante e a força renovada do movimento feminista. As mulheres ocuparam as ruas do Rio sob chuva para dizer que o pessoal é político. Espalharam cartazes pela cidade e fizeram ecoar seu grito online e offline: agressor de mulher o Rio não quer.

Um inquérito foi aberto pelo Ministério Público e, em Agosto de 2016, arquivado pelo Procurador Geral da República. O PMDB do Rio achou que o calcanhar de Aquiles do seu candidato tinha ficado no passado. Mas a flecha feminista já tinha sido lançada.

No domingo, 2 de Outubro, apesar do arquivamento da denúncia, da máquina do Estado, das obras inauguradas no centro da cidade, do VLT, das Olimpíadas, o atual Prefeito Eduardo Paes não conseguiu levar seu sucessor ao segundo turno. Porque a sociedade brasileira está mudando, as mulheres estão construindo um novo normal, mas o PMDB do Rio, encastelado há décadas no poder e preocupado com a manutenção desse status quo, não notou. As mulheres passaram marchando na janela e o PMDB não viu.

O resultado nós vimos nas urnas. Justo. A violência contra a mulher que mancha de sangue o chão de tantos lares deve manchar também o currículo dos homens públicos. Embora o inquérito tenha sido arquivado, Pedro Paulo admitiu publicamente ter agredido a ex-mulher. E usou dos velhos artifícios para justificar o injustificável. O arquivamento veio, mas sobre o candidato nunca deixou de pesar a pecha de machista e a suspeição. Há muito por fazer. Mulheres são a maioria da população mas seguem subrepresntadas, têm direitos negados ou negligenciados por um Estado majoritariamente ocupado por homens brancos de elite. Mas o Rio de Janeiro confirmou neste domingo que há avanços. Um deles é: “perder o controle” não é mais normal. E significará, daqui para frente, perder eleições.