Candidatas, eleitoras e eleições: pensar a #partidA rumo a 2018

Por #AgoraÉQueSãoElas

* Por Marcia Tiburi

As últimas eleições municipais são um retrato da mentalidade brasileira, própria das classes e do patriarcado detentores dos meios de produção da informação e, assim, da adesão às candidaturas. A manipulação é uma perversa tecnologia política aplicada sem reservas no contexto em que tradição e cinismo estão em festa.

O feminismo está em alta, mas a representação feminina na política continua precária. Comparado às eleições de 2012, nenhuma mudança significativa. Apenas 32% de candidatas concorreram aos cargos municipais. Cerca de 12% concorrem na posição fundamental de prefeita como cabeça de chapa. Verdade que há, segundo o TSE, mais de 50 municípios onde só concorrem mulheres ao cargo de prefeita, mas num total de 5.570 municípios compondo a nação, é um percentual baixíssimo comparado aos 3.815 municípios onde apenas concorriam homens. Uma única mulher elegeu-se no primeiro turno, Teresa Surita, em Boa Vista.

Certamente há aspectos culturais nesse quadro. É o Rio Grande do Norte, estado em que se elegeu a primeira mulher prefeita, Alzira Soriano, em 1928, antes mesmo do voto feminino ser estendido à nação, que liderou a lista dos estados com maior quantidade de mulheres candidatas. Mesmo assim, de 1928 até agora as coisas não evoluíram muito.

Nesse cenário em que a quantidade é também qualidade, Luciana Boiteux, candidata a vice-prefeita pela chapa do Psol no Rio de Janeiro, junto a Marcelo Freixo, passa a usar o termo “co-prefeita” num gesto de afirmação da potência das mulheres no processo eleitoral que os encaminhou ao segundo turno em uma disputa difícil no Rio de Janeiro. Vários candidatos assumiram mulheres como vices, por perceberem que o significante “mulheres”está em cena na política. Aceitam uma demanda de participação que demonstra também uma novidade na politização cotidiana. As mulheres estão presentes, ainda que em números muito aquém dos desejáveis. E pedem mais. Hoje não está em jogo apenas o direito de votar, mas o direito de ser votada. De candidatar-se e de eleger-se.  Contudo, precisamos voltar a questão do voto das mulheres pouco ligado a consciência de gênero. Que medidas, que processos de politização devem ser levados a sério para que as mulheres, maioria populacional, percebam a importância de votar em mulheres?

O feminismo como teoria-prática e como ético-política tem falado cada vez mais com as mulheres, mas precisa passar de máquina de protagonismo espetacular – em que se detém a instituição, o nome, mas não o poder, à uma máquina concreta de ascenção de mulheres aos poderes constituídos. Mulheres que, diga-se, sejam conscientes da condição de gênero e, por isso, ajam na ultrapassagem do feminino subjugado à emancipação feminista.

Como teoria-prática, como ético-política, o feminismo deve se constituir em ponte entre a vida posta em um lugar secundário, a vida das mulheres reclusas em suas casas, submetidas a todo tipo de dominação masculina, a vida subalternizada em função do gênero, e a vida do poder.

É isso o que busca  o movimento político denominado #partidA, nascido em 2015 e que vem se construindo a partir de uma discussão tanto municipal quanto nacional entre mulheres e feministas, sobre a possibilidade de um partido feminista no Brasil. Durante esse ano, o movimento, levando a sério sua questão e sugerindo sua experiência como um movimento que funciona como partido, buscou organizar-se na forma de grupos articulados em diversas cidades do Brasil de norte a sul (Porto Alegre, Curitiba, Belém, Salvador, Recife, Aracaju, Goiânia, São Paulo, Florianópolis, Belo Horizonte, Brasília, entre outras). Como se trata de um movimento feminista, o processo de constituição desses grupos desobedece padrões verticais do patriarcado: não há líderes, nem orientações que engessem práticas de adesão, ainda que haja um conjunto de princípios feministas básicos observados pelas participantes. A ideia é fazer democracia com a mais próxima, perfurando bloqueios de raça e classe e também ideológicos. Trata-se de um movimento de protagonização feminista, interseccional, dialógico, no qual raça, classe, sexualidade, gênero, idade, são aspectos contemplados nas práticas cotidianas de politização.

A intenção do movimento é politizar o cotidiano das mulheres por meio de reuniões de formação ético-política e promover seu protagonismo político. É a partir de uma diálogo entre feministas que já participam ativamente da vida do poder nos termos dos cargos, dos movimentos, dos coletivos, e as mulheres que desejam conhecer o feminismo como ético-política voltada à defesa dos direitos fundamentais e à uma sociedade construída em bases não violentas, social e ecologicamente viáveis.

A #partidA defende a reunião dialógica entre mulheres e feministas contra os discursos e práticas misóginos que afastam as mulheres da política afastando-as, inicialmente, umas das outras e cada um de si mesma.

Nesse ano, incentivamos filiações e candidaturas de mulheres aos cargos eletivos. Participamos das campanhas como forma de fazer experiência política. Estimamos que mais de 20 mil mulheres estão ligadas ao movimento pelo Brasil afora, do Rio Grande do Sul aos estados do norte. No Rio de Janeiro tivemos quatro candidatas à câmara de vereadores ligadas diretamente ao movimento, das quais Marielle Franco foi eleita com uma soma impressionante de votos. Luciana Boiteux, candidata a vice-prefeita na chapa do PSol no Rio de Janeiro, é uma das fundadoras do movimento e segue na disputa do segundo turno. Em Belo Horizonte, Áurea Carolina, ligada desde o início ao grupo mineiro, foi a candidata mais votada para a câmara de vereadores. Nas capitais  de Porto Alegre, Curitiba, Aracajú, São Paulo, Rio de Janeiro, as candidatas tiveram votações consistentes. Algumas feministas simpatizantes do movimento foram eleitas e devem integrar-se na direção de um fortalecimento dos laços colaborativos que são o diferencial da modo de fazer política feminista.

A tarefa urgente é politizar as mulheres e a sociedade como um todo para que percebam o peso das contradições políticas em suas vidas: o que significa votar em homens, o que significa ser maioria e ser tratada como minoria justamente por não termos poder, por deixamos nossos destinos serem determinados por quem quer nos usar. Esperamos que, nesse momento, o movimento da #partidA cresça como efeito de uma consciência, sem a qual, tornamo-nos cúmplices de um sistema de injustiças, aderimos de maneira tonta aos processos políticos que não servem aos direitos que temos como cidadãs.

As feministas brasileiras sabem que as eleições de 2018 pertencem a elas por direito.

* Marcia Tiburi é professora de filosofia e escritora