A primeira vez de uma vítima de abuso

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Nana Queiroz*

A primeira vez em que eu percebi o potencial sexual do meu corpo foi através do abuso. Eu era bem pequena, não lembro ao certo a idade – era daquela época em que as lembranças chegam claras, mas meio sem marca temporal. Dalí em diante o sexo sempre teve um ranço amargo para mim.

Sexo era vergonha, violência e medo.

Sexo era aquela coisa que me fazia sentir mal comigo e chorar.

Não contei ao meu namorado que tinha passado por isso quando decidi transar pela primeira vez. Em parte por vergonha, em outra porque ainda achava um pouco que a culpa tinha sido minha. Tinha quase 20 anos – demorei à beça se comparada às garotas da minha geração. E tive sorte. O Vini, meu amor de olhos furta-cor da faculdade, teve muita paciência. Tentamos mil vezes antes de conseguir pra valer. Eu queria, queria muito, tinha desejos e uma convicção racional. Mas meu corpo não respondia, minha vagina se contraía involuntariamente e minha lubrificação simplesmente não existia.

Toda vez que eu chorava “para!”, ele parava tudo, onde estivesse. Imediatamente. Excitado, frustrado, carente… Segurava tudo como um homem de caráter e não como um animal. O Vini não tinha medo nenhum de ser tomado por “bichinha”. Ele não precisava sair forçando a barra pra contar vantagem e não tinha vergonha de ser doce comigo na frente dos outros. E, ah, ele era puro açúcar!

Eu, naturalmente, não esperava nada menos dele. Mas tem muito homem por aí (42%, me diz a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do DataFolha) que daria menos.

Nos braços dele eu descobri que o sexo podia ser gozo, podia ser amor, podia ser troca e afeto. Podia ser descoberta de mim e dele. Hoje eu sou casada e gosto de sexo. Ninguém precisa gostar, mas eu amo ter recuperado isso. Prazer sexual era um direito meu como é de todo mundo e eu fiz questão de recuperar meu acesso a ele.

Nesta semana, viralizou nas redes sociais um relato em que um cara narra como se sentiu, enquanto homem, fazendo sexo com uma vítima de estupro. Um cara que me lembrou o Vini porque estava ali disposto a ouvir o que o corpo daquela mulher contava pra ele, disposto a entender que as atitudes ele havia aprendido em filmes pornôs eram, na verdade, violência. Um cara que, a meu ver, estava disposto a se desconstruir. E as redes reagiram. Muitas companheiras escreveram relatos igualmente ou ainda mais comoventes. Debateu-se o direito de falar sobre o assunto de cada lugar de fala. Disseram que o autor queria apenas tentar roubar o protagonismo feminino e falar de assunto que não era dele. Ou de falar dele. De seu processo. Apenas.

E eu, vítima de abuso, venho dizer que adoraria que o assunto fosse de todo mundo. Acolho todas e todos os que queiram falar. Mandar os homens calarem a boca em vingança pelos anos de opressão ou pela violência sofrida pode parecer a saída. Já tive esse impulso. Mas hoje me parece mais produtivo educá-los. E, para educar, é preciso deixá-los falar.

Se todo mundo falasse de estupro, a gente não acharia que “mulher tá pedindo”. Se todo mundo falasse de estupro, 1/3 das brasileiras e brasileiros não pensariam que as mulheres são culpadas pelo abuso. Se todo mundo falasse de estupro, talvez eu tivesse tido coragem de contar ao Vini porque aquele processo todo era tão difícil pra mim.

Teria me feito bem.

Mas o Vini não soube e, mesmo assim, ouviu cada recado do meu corpo. Cada passo dessa descoberta foi importante não porque eu “fui curada pelo pênis”, como têm dito alguns textos insensíveis de internet por aí, mas porque eu fui curada pela humanidade do Vini, pelo caráter, pela capacidade que ele tinha de me olhar nos olhos e me ver e me fazer sentir como ser humano que eu sou. Alguém igual a ele. Alguém que tem querer, vontades, desejos. Aquilo que o primeiro cara que me tocou roubou de mim, o Vini, sim, me ajudou a reconquistar.

Poderia ter sido uma mina, um cara, uma pessoa não-binária ou trans. Não era o gênero do parceiro que estava ali em jogo – e eu acredito que o papel do feminismo é, às vezes, lembrar que gênero importa e, às vezes, lembrar que não. E que a grande sabedoria está em entender quando é a hora de cada coisa. A redescoberta do sexo por uma vítima de estupro ou abuso sexual se dá através da redescoberta da própria dignidade no sexo. E, pra isso, muitas pessoas precisam, sim, do outro. Ou da outra. De alguém. O sexo, afinal, é uma experiência, no mínimo, a dois.

Entendo mulheres que precisam se empoderar sozinhas, mas este não é o único caminho e o meu caminho também deve ser respeitado. E desculpe se vai soar autoajuda, mas o poder de cura do amor tem que ser respeitado. Todo processo de empoderamento feminino é singular e merece respeito. Não é vergonha precisar de outro ou outra, não é pouco feminista.

Hoje, o Vini está morto.

Ele tinha só 33 anos e o coração dele parou de forma inesperada. Eu nunca vou chorar lágrimas suficientes por ele. Ele me ajudou a recuperar um monte de aspectos de mim. E isso, que é o mínimo que a gente espera de um cara, que seja mais que um caralho, infelizmente é coisa pra caralho.

Sim, eu, Nana, vítima de abuso sexual antes dos dez anos, quero que mais homens façam parte dessa conversa. E desejo que mais homens sejam Vinis pra alguém.

* Nana é diretora da Revista AzMina, autora dos livros “Presos que Menstruam” e “Você já é feminista”. O Vini estava lá no lançamento do primeiro livro dela, mas não conseguiu ir ao segundo. Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.