#VoteNelas: Marielle Franco

Por #AgoraÉQueSãoElas

Eu sou porque nós somos!

Por Marielle Franco*

A disputa da política é grande um desafio, principalmente para nós mulheres. A lógica machista nos persegue a todo tempo e a sentimos com intensidade, principalmente quando decidimos ocupar um espaço na institucionalidade política. E o reflexo disso são corriqueiros no cotidiano das nossas campanhas eleitorais, sejam feministas ou não. Imprimir a imagem do nosso rosto em um panfleto é quase um convite ao assédio, que vai desde pedidos de casamento até propostas da troca do voto por um beijo. Tudo com muito humor e sorrisos escancarados, como boa parte da estética do machismo que, na maioria das vezes, acaba em violência, psicológica ou física contra a mulher, e alimenta a cultura do estupro.

Exagero? Não, mesmo. Precisamos repetir como mantra: o Brasil ocupa o 5º lugar na taxa de homicídios de mulheres na lista de 83 países, de acordo com o Mapa da Violência de 2015. Entre 2003 e 2013, o número de assassinatos aumentou 21%. Isso significa que, em 10 anos, passou de 3.937 para 4.762 vítimas. São 13 mulheres mortas diariamente. Se fizermos o recorte para as mulheres negras, os dados são ainda mais alarmantes. Houve um aumento de 54,2%, de 1.864 vítimas, em 2003, passou para 2.875, em 2013. O feminicídio se concentra na juventude de 18 a 30 anos.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o 9º Dossiê Mulher 2014, organizado a partir dos registros nas delegacias policiais, demonstra que a violência sexual gera o maior número de ocorrências. Em 2013, das 6.501 vítimas, 4.871 (82,8%) são de mulheres estupradas. O estudo revela que a violência também se dá por meio de ameaça e lesão corporal e os prováveis agressores são companheiros ou pessoas do convívio familiar.

Construir políticas públicas preventivas que possam agir sobre um ambiente diferente do penal é um dos grandes desafios que temos em nossa jornada e um dos objetivos na ação parlamentar em um futuro mandato de vereadora do Rio. Trata-se de articular a educação e a cultura enquanto potência, com novas estéticas em que as mulheres sejam protagonistas. Este é um dos passos fundamentais para diluir ações machistas para o respeito à mulher, seja nas relações domésticas, trabalhistas e cotidianas.

O que nos anima nesse processo de construção política é identificar a força da empatia e do afeto. São dezenas de jovens mulheres, nas mais variadas ações de rua, que colocam sua disposição a serviço dessa luta coletiva. Antes mesmo do resultado eleitoral, já há uma vitória de vida política, que floresce como rosas que rompem o asfalto.

Nesse sentido, reafirmamos: nossa luta é pela vida das mulheres. Apostamos que contra a cultura do estupro, do machismo, do sexismo, só uma cultura de direitos. Por isso, estar na política é tão urgente. Somos nós que temos que legislar sobre nossos corpos, desejos e destinos. A luta política institucional, em casas legislativas tão misóginas e racistas, precisa ser ocupada para representar de fato todos os nossos anseios. Pra fazer valer a vida, eu sou candidata porque nós somos necessárias. Eu sou porque nós somos!

*Marielle Franco é socióloga, mestre em administração pública, mulher negra de origem favelada e candidata a vereadora pelo PSOL Carioca.