Olimpíadas e regulação das masculinidades não-hegemônicas

Por #AgoraÉQueSãoElas

por Adriana Azevedo*

 

Nos 800m do atletismo nas Olimpíadas Rio 2016, uma corredora conseguiu o feito de ser a mais veloz e levar o ouro: a sul africana Caster Semenya. Só que desde que apontou como a melhor na categoria no World Athletics Championships em 2009, aos 18 anos, deixando as adversárias comendo poeira, ao conseguir o tempo de 1 minuto e 56.72 segundos, virou tabloide não pela velocidade, mas pelo alerta que seu corpo emitia: ela não seria, aos olhos do mundo heteronormativo, suficientemente feminina para a competição de mulheres – ou seria demasiadamente masculina?

Para além das manchetes sexistas, está um escândalo maior no mundo dos esportes, sobretudo no atletismo e nas competições olímpicas: as práticas médicas de “verificação de gênero” que remontam a um passado sombrio de controle do corpo das mulheres e que perduram até as competições contemporâneas. Tais práticas nos fazem pensar ainda no papel de tais corpos nos esporte e, sobretudo, no controle da masculinidade feminina nos esportes – que acaba se tornando um espetáculo à parte e, se não controlada, se tornaria uma enorme ameaça às normas de separação dos gêneros.

O acesso à masculinidade pelo corpo das mulheres é intimamente controlado, a ponto de Beatriz Preciado chamar o tradicional cartão de controle das doses das pílulas anticoncepcionais, em seu livro “Testo Yonqui”, de “panóptico comestível”, em referência à arquitetura das prisões descritas por Michel Foucault em seu livro “Vigiar e Punir”. O anticoncepcional, como argumenta filósofa espanhola, seria uma forma de controle das taxas hormonais nas mulheres e, consequentemente, do controle da masculinização que corpos desviantes dos padrões biológicos binários poderiam gerar. Alia-se a isso, ainda, a dificuldade de acesso à testosterona sintética pelas mulheres e homens transexuais que desejam iniciar algum tipo de processo de masculinização.

(imagem sugerida: https://periodicoelamanecer.files.wordpress.com/2014/03/panopti2.jpg)

Ao atingir a tal marca recorde de 2009, Semenya foi submetida a uma enorme exposição pública de questionamento de seu gênero, e também a testes e exames de verificações de sexo. A sua conquista deu lugar à polêmica em torno de ela ser realmente ou não uma mulher, deflagrando a enorme preocupação do mundo esportivo em relação à masculinidade no corpo de mulheres.

A corredora foi extremamente afetada pelos testes aos quais fora submetida e ao caos midiático em torno do assunto. “Se não fosse pela minha família, eu não teria sobrevivido”, declarou à BBC em 2015, sobre o episódio de 2009. “Eu fui uma campeã, mas eu nunca fui capaz de celebrar isto. Foi uma piada para mim. Eu cresci assim. Eu cresci com garotos. Eu cresci no meio de garotos, eu não posso mudar isso […] Eu sou natural. Eu só estou sendo Caster. Eu não quero ser alguém que eu não quero ser. Eu não quero ser alguém que as pessoas querem que eu seja. Eu só quero ser eu. Eu nasci assim. Eu não quero nenhuma mudança”.

As verificações de gênero são costumeiramente feitas sob o argumento de que os níveis de testosterona acima do que é considerado “normal” para o corpo de uma mulher, podem gerar vantagens injustas a algumas atletas em relação às suas adversárias.

Estes testes são chamados também de gender determination ou sex test. A primeira verificação em atletas mulheres foi feita em 1950, pela International Association of Athletics Federation (IAAF), na mesma década na qual o psicólogo e sexologista John Money forjava o conceito de gênero binário através de suas teorias e experimentos de adequação de gênero com pessoas intersexuais. Inicialmente, as ‘verificações de gênero’ tomaram a forma de exames físicos, mais tarde passaram a envolver testes cromossômicos, e ainda exames sangue para medir os níveis de testosterona das atletas.

Em 2011 e 2012, como esclarece a antropóloga pesquisadora do Museu Nacional Barbara Pires, em um artigo científico intitulado “As políticas e produções de sexo/gênero no esporte: um olhar sobre o hoperandrogenismo às vésperas das Olimpíadas Rio 2016”, “a IAFF e o COI anunciaram uma nova resolução para regular a elegibilidade das atletas, chamada de ‘hiperandrogismo’, em que investigam as concentrações de hormônio androgênico natural (isto é, não é a dopagem de andrógenos sintéticos comumente investigada em controle antidoping) no sangue das atletas.” O principal hormônio androgênico, acrescenta Barbara, é a testosterona, e para estes testes, mulheres com taxas maiores do que 10 nanomole por litro de sangue passariam do limite do que determinam ser uma mulher, entrando em um domínio hormonal masculino. Tais atletas deveriam fazer um tratamento para regular estas taxas (cirúrgico ou com bloqueadores hormonais), ou seriam impedidas de competirem nas categorias femininas. Tudo sob o argumento de que as altas concentrações de testosterona proveriam uma vantagem de desempenho esportivo desleal em relação às outras atletas.

Grande parte das atletas que passam por estes controles estão inseridas em um guarda-chuva científico denominado “Desordens do desenvolvimento sexual”. DSDs não são um único tipo de desordem, como se imagina costumeiramente, mas um espectro de condições intersexuais que englobam diversos tipos de genitália externa e interna, variações cromossômicas e hormonais. As atletas que se enquadram nas DSDs são as que geralmente são “pegas” nas verificações de gênero da IAAF e do COI. Além de Semenya, a judoca brasileira Edinanci da Silva já foi vítima de tais verificações de gênero e também a atleta indiana Dutee Chand – caso sobre o qual o New York Times publicou um artigo esclarecedor (em inglês).

Barbara Pires argumenta que não há evidência científica de que os altos níveis de testosterona produzidos de forma natural por indivíduos com as chamadas “Desordens do desenvolvimento sexual”, ou DSDs, poderiam operar vantagens desleais nas competições – ao contrário do que acontece com os atletas que utilizam testosterona sintética, suscetíveis aos testes antidoping. Esta falta de evidência fez com que o COI suspendesse a obrigatoriedade de controle hormonal nas atletas que apresentam taxas de testosterona acima do “aceitável” para as categorias femininas.

Às vésperas da prova dos 800m nas olimpíadas, não se falava de outra coisa a não ser a possibilidade de, novamente, Caster Semenya conquistar a medalha de ouro na categoria. Se Semenya ganhasse a corrida, argumentavam os jornalistas esportivos, ela poderia fazer com que o COI e a IAAF voltassem atrás quanto à liminar proibia os inibidores de testosterona em atletas que se enquadrassem no que se denomina de ‘hiperandrogismo’. Em uma caça às bruxas, telespectadores e repórteres passavam as suas regras normalizadoras em cada curva, em cada músculo, em cada aspecto masculinizante que possa colocar o enquadramento de Semenya fora da categoria esportiva à qual faz parte.

Mas é importante ressaltar que múltiplos fatores podem colaborar com desvantagens e vantagens entre atletas (desde biologia, até condições de treinamento/crescimento), não podendo definir que apenas os níveis de testosterona em mulheres contribuiriam para uma vantagem injusta.

Diante de tais evidências, ficam as provocações: por que só com mulheres? Por que só as categorias esportivas femininas são suscetíveis aos chamados “testes de verificação de gênero”? Por que somente os corpos e vidas das mulheres atletas são violados, examinados minuciosamente – pela imprensa, pelo COI, pela IAFF e pela sociedade? Em nome de que? Ou, em resumo, uma indignação: por que as masculinidades em mulheres incomodam tanto, a ponto de sermos alvo deste tipo de barbárie que interdita os nossos corpos dos esportes?

Tudo isto é o jogo biopolítico da heteronormatividade – a necessidade de invisibilizar de forma eficiente estes corpos que acessam a masculinidade onde ela não tem permissão de ser encenada: os corpos de mulheres. A função deste controle é esconder bem escondido quem deflagra em seu próprio corpo que não é só a feminilidade que é uma construção, uma encenação, mas também a masculinidade. A masculinidade não é terreno do neutro. Ou melhor, não é apenas a mulher que não nasce mulher, torna-se (retomando Beauvoir), torna-se homem também. E a masculinidade feminina deixa isto à mostra de forma ameaçadora. Que as Semenyas resistam.

 

* Adriana Azevedo é artista, ativista e doutora pelo programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-RIO, tendo desenvolvido parte da sua pesquisa – com enfoque em teoria queer, gêneros, sexualidades, arte, criação e novas redes afetivas  –  na Université de Lille 3, na França. Atualmente trabalha na equipe de produção executiva da produtora Giros.