Eu voltei

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Clara Sobral*

Da última vez que tentei escrever, não consegui. Fiquei embrulhada e eu acabei voltando para aquele lugar. Agora, com mãos trêmulas, tento escrever alguns pensamentos sobre o assunto.

No dia 30 de dezembro de 2012, depois do almoço com amigos queridos, sai para meditar e passear nas dunas da cidade de Uruaú, a 80 km de Fortaleza. Sentada de frente para o mar, vi um movimento esquisito, um homem, ao largo, arrastando um galho na areia. Nenhuma outra pessoa por perto, então achei melhor ir embora dali. Por via das dúvidas, na minha descida apressada, peguei uma pedra. Ele me esperava entocado, e quando passei correndo ele bateu o tronco na parte de trás dos meus joelhos, caí. Olhei pra ele e, pedra na mão, arremessei. Pegou na orelha dele de raspão. Ele me enforcava enquanto eu apertava seu saco. Quase perdi a consciência e então resolvi partir para a conversa: se vai acontecer, vai acontecer nas minhas condições.

Céu azul, nuvens. Desassociação completa entre tudo. Os pedaços já estavam espalhados. E uma única meta: voltar para casa. O céu escureceu e resolvi mais uma vez conversar. Pessoas me esperam, preciso voltar. Se eu não voltar, você imagina o que vai acontecer com você?

Eu voltei. Estou viva. Mais do que isso, estou feliz! Mas demorou, viu? Muito. As pessoas têm toda a empatia por vítimas mas pouco sabem (ou querem saber) o que acontece com elas depois do trauma. Eu consegui pegar o último avião de volta para o Rio e tive que segurar minha mãe nos meus braços quando contei o que tinha acontecido. Depois disso, achei que tinha entendido – a culpa não é minha, eu só estava no lugar errado na hora errada. Acabei com síndrome do pânico, preferindo pegar ônibus a taxi porque tinha certeza de que os motoristas queriam me seqüestrar. Comecei a ir no psiquiatra, para depois de um ano de terapia entender que estava deprimida e que precisava de remédios.

Tive que aceitar o papel de vítima (para o qual nunca me achei apta) e até outro dia me batia um pânico imenso quando um homem atravessava a rua ao meu encontro. Ainda tenho dificuldade de olhar homens desconhecidos nos olhos. Não posso doar sangue até ano que vem. O que me salvou, além dos remédios e acompanhamento médico, foi poder contar com a família e os amigos mais próximos: a base de muito carinho, compreensão e amor, as forças para sair da cama foram voltando.

Mas não se enganem: NADA nesse processo é linear e progressivo. Até hoje tenho meus momentos de profunda tristeza. Parte de mim morreu naquele dia. Mas das primeiras cicatrizes brota algo maior: uma gana, uma certeza de que homem nenhum é ou JAMAIS será capaz de acabar com o gosto que tenho pela vida. O estupro mudou tudo: o rumo da minha história, a minha personalidade. Mas também me ensinou a pedir ajuda. E quando eu comecei a compartilhar a minha história, rapidamente ouvi relatos de outras que, assim como eu, tinham perdido parte de si para homens covardes.

Como é doído se encontrar na dor da outra. E como é profundo também. Eu vejo essas minhas amigas hoje – lindas, poderosas, verdadeiras fênixes que se reinventaram. A minha mais profunda admiração a elas e tantas outras que dividem, conosco, essa dor. Depois de ouvir cada história, chorei aos prantos, revoltada com o silêncio que envolvia o tema – mas que, hoje, é mais do que burburinho, está virando barulho.

Pois bem, basta. A sua dor, mulher, é a minha dor. E deveria ser a dor de todos. A aqueles que estão ao redor dessas mulheres, ficam aqui alguns modestos conselhos: não precisamos de pena, precisamos de compreensão. Não queremos condescendência, queremos afeto. Por vezes ficamos raivosas e por isso pedimos paciência – a empatia e o amor são remédios poderosos.

* Clara Sobral é jornalista.