Eu tinha três anos

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Fernanda Garcia*

Eu tinha três anos. Eles eram três homens. Três tios. Três estupradores.

Minha mãe era uma jovem mulher que saiu do interior de Pernambuco e veio para o Rio de Janeiro para tentar proporcionar melhor qualidade de vida para os seus pais e onze irmãos. Assim que pôde, ela trouxe seus irmãos mais novos para morar com com a gente. Eu tinha três anos. E o que ela não sabia, e durante longos anos nunca soube, era que esses três irmãos seriam os causadores da maior dor que a sua única filha carregaria durante toda a vida.

Era uma casa velha em Ramos, na Zona Norte do Rio. Um quintal com muitas árvores e mato por todos os lados, um pedaço do interior dentro da selva de pedra. Eles eram três, e eu só tinha três,  eles me levavam para o meio daquelas enormes bananeiras, me deitavam, me acariciavam, me beijavam, me tocavam, e passavam seus órgãos genitais pelo meu pequeno corpo de criança, no que eles chamavam de “brincadeira”.

Minha mente não quis processar aquilo que eu não entendia mas que sabia ter sido ruim. Como mecanismo de defesa, ela escondeu aqueles episódios por longos anos, até que aquelas lembranças foram ressuscitadas através de um novo episódio das mesmas “brincadeiras”.

Eu agora era uma adolescente de dezessete, ele um homem casado e pai de um filho. Ele morava em São Paulo, veio até o Rio de Janeiro à trabalho, e resolveu visitar minha família. Era uma sexta à noite quando ele chegou, e eu não sabia direito o por quê, mas a presença dele me incomodava. Eu evitava olhar no seu rosto, estar no mesmo ambiente, e lhe dirigir a palavra.

Era hora de dormir, e na minha casa de dois quartos o espaço mais confortável para que ele dormisse era o meu quarto, e foi assim. Lembro de minha mãe arrumando uma cama para que ele dormisse ao lado da minha, pobre coitada da minha mãe, nunca havia passado pela sua mente que o seu próprio irmão fosse capaz de violentar a sobrinha, afinal, tinham sido criados por um nordestino cabra da peste, que jamais havia ousado tocar em uma de suas filhas.

Deitamos, ele na cama ao lado da minha, e eu em uma cama colada na parede, e foi ali que eu fiquei, colada na parede, com medo, mesmo sem saber porquê.

Até que o medo fez sentido, e ele de forma depreciativa me perguntou se eu fazia uso de contraceptivos. Eu, que ainda era uma menina, sem vida sexual ativa, respondi que não, por motivos óbvios.

Ele riu, e com um sorriso irônico disse: mas você era bem safadinha quando era pequena.

E foi nesse momento que minha mente parou, e voltou aos meus três anos, e tudo que havia sido recalcado como defesa veio à tona como um flashback, o pior flashback que eu já tinha visto.

Orei à Deus, pedi que me protegesse, pois agora eu já sabia que estava dormindo ao lado do meu opressor, mesmo que ainda tivesse medo de aceitar completamente.

Adormeci, e quando abri os olhos pela manhã a primeira coisa que vi foi meu agressor me observando. Ele me olhava com olhos famintos, como um animal olha para a sua presa. Me virei, fechei os olhos e pedi aos céus para que aquilo não fosse real. Até que ele veio para a minha cama, me abraçou, acariciou o meu corpo, e naquele momento, eu era novamente aquela criança de três anos no meio das bananeiras.

Dessa vez eu sabia o que estava acontecendo, e busquei dentro de mim toda a força que até aquele momento não conhecia, me levantei, corri, e chorando fui até meus pais contar o que havia acontecido.

Hoje sou uma mulher de quase 21 anos, e graças a forças divinas, forças vindas da minha família e acompanhamentos médicos, consegui transformar minha dor em luta, e por mais que esses fantasmas do passado insistam em me assombrar, hoje eu me sinto maior e mais forte que eles.

Eu também sou essa jovem de 16 anos, e todas as vezes que vejo buscas incessantes por meios que justifiquem o estupro coletivo que contra ela foi cometido, é também o meu estupro que tentam justificar.

Eu não sou culpada. Ela não é culpada.

Contra mim foram três. Contra ela, mais de trinta.

Hoje eu sobrevivo lutando por mim, por todas as mulheres com histórias semelhantes. Por ela.

*Fernanda Garcia é mobilizadora da Rede Meu Rio.