Impróprio

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Ana Kiffer*

para Mariana Patrício Fernandes
e para minha mãe

no papel não caberia
o que no corpo
já não cabia
na poesia caberia

Mana Bernardes

 

Foi ontem. alguns dizem. parece ter sido ontem. sexta-feira de carnaval no Rio de Janeiro. bloco de conhecidos. uma batucada cantada. singela. estava eu com essa amiga tão querida. encontramos outros amigos. nos perdemos. num momento a vi do outro lado da avenida presidente Wilson, correndo em direção a um ônibus fretado, e a um grupo de homens muito fortes. difícil ver o que havia no meio. sim, era o corpo de uma moça. caído. minha amiga diante dele. alguns colegas do bloco. atravessaram a rua. trouxeram-na para dentro do restaurante da esquina. velho vilarino. eu entrei em busca da moça. queria falar com ela. até aquele momento não sabia porque. mas precisava. não a encontramos em nenhum banheiro. tampouco no depósito. foi quando o garçom a viu. um corpo encolhido. feito ovo. retorcido sobre si. debaixo da mesa. a última mesa. no canto fechado do restaurante. encurralada ali por mesas e cadeiras vazias. um corpo torcido. encolhido. desde criança fazemos. nos escondemos. fugimos. mas era real.

*

há trinta anos atrás meu corpo assim torcido. igual. debaixo do chuveiro. um hotel no nordeste. eu tinha apenas dezesseis. ele era meu ídolo.

há quarenta e oito anos atrás. dezembro de 1968. o corpo da minha mãe. seria possível que estivesse torcido sobre si? ela estava no quarto mês de gravidez. eu estava assim torcida dentro dela. chamam a isso de posição fetal. esse corpo ovo. a cela. uma prisão em Niterói. minha mãe já morreu. não posso perguntar qual prisão. talvez o arquivo militar. arquivo? Brasil? qual diálogo entre esses dois termos que tão raro ainda parecem um ao outro?

qual corpo estará a mulher protegendo quando se enrosca sobre o seu próprio ventre? aquele mesmo que foi chutado ontem. parece mesmo ter sido ontem. por tantos pés. eles vinham busca-la no restaurante. eu consegui lhe fazer apenas uma pergunta, enquanto a sua mãe ali ao meu lado pedia que ela voltasse para eles. você quer entrar naquele ônibus? um choro agudo. uma voz de desespero. as frases se aceleram.

e ainda tantos homens chamando a isso de histeria. o corpo recolhido. protegendo os lugares histeros. você quer voltar e entrar naquele ônibus? você quer voltar para aquele quarto de hotel? você quer voltar para aquela cela?

Graciliano Ramos dizia dez anos depois de ter saído do cárcere que escrever as suas memórias era descer de novo ao inferno da cadeia. Artaud falou de um inferno não criado depois que saiu do Asilo psiquiátrico de Rodez. algo pulula nesses lugares anteriores à vida. esses para onde somos levadas algumas vezes. injustamente. a violência para quem a sofreu de forma tão frontal. em seus histeros. de algum modo instaura novos limiares para o corpo. algo de impróprio vai lhe habitar. um deslocamento fundo que acaba abrindo vagas interiores. e muitas vezes incluso uma naturalidade em reagir violentamente. é preciso dizer. quando os discursos insidiosamente violentos. aparentemente brandos. nos são dirigidos. tantas vezes são.

*

dizer que o meu corpo é meu é paradoxalmente uma conquista conjunta. o meu só existe na relação com um algo teu. somos juntas convidadas nesse momento para habitar um comum. e descermos de mão dadas a alguns desses infernos.

buscar lembrar qual roupa usava o seu estuprador é também um modo de deslocar algo tão ruim quanto o ato sofrido de violência. essa violência branca. aparentemente branda. insidiosa. discursiva. construída historicamente há anos pelas sociedades patriarcais e machistas. ela inocula em nossos histeros a culpabilidade. a crueldade do discurso que fala sem cessar: ‘nós mesmas, de algum modo, provocamos a violência que sofremos’. por isso, tantas vezes, depois do ato de violência dizer algo dele é impossível. ou nada mais é do que um desejo de exposição, ele mesmo considerado histérico. difícil sair desse círculo. tão difícil quanto abrir de novo a espiral do corpo ovo. e deixar os esconderijos que um dia acreditamos que nos iam proteger. a tarefa hoje é enfrentar os dois corpos: o que não me pertence mais, aquele que o outro que o violou levou consigo. deixando aqui apenas esse feixe de tripas. e esse incomunicável.

e esse outro corpo. cheio de excesso de comunicados. comunicados terríveis. aterrorizantes. as roupas que usamos. os lugares por onde andamos. cada centímetro cerceado quando tentamos tomar em nossas mãos os nossos desejos. aqueles que não nos roubaram. nem usurparam. porque o que ficou ali, debaixo daquela mesa, naquele quarto ou naquela cela não éramos nós mesmas. apenas a violência do outro. ele mesmo encerrado de agora em diante na sua própria e terrível solidão.

*

sinto suavemente enquanto escrevo a mão da minha mãe. ela me diz que são muitas e diferentes as violências pela qual passamos. e este país. e eu entendo. mas em algum ponto vejo a linha que une esses três corpos jogados num canto qualquer. do restaurante, do quarto do hotel, da prisão.
a sua mão então se aproxima daqueles que ontem tentaram ajudar aquela jovem espancada em plena avenida presidente Wilson por membros de sua ‘própria’ família, essa primeira célula em nossas sociedades, confiamos? o estado e a lei com o qual contribuímos, e que tantas vezes se suspendem nesse país, nas suas celas, confiamos? os nossos ídolos agraciados pelo sucesso de nossas sociedades do espetáculo, espetaculosa, espetaculares, confiamos? descubro que a linha que une esses espaços, esses corpos, acaba por me dizer que no Brasil, na maior partes das vezes, os lugares de exercício de poder transformam-se rapidamente em estados de dominação. exercício de poder não é igual aos estados de dominação. nestes, não temos voz. e nem mesmo o nosso corpo nos pertence.

as minhas mãos estremecem. busco encontrar a de vocês. esperando que este texto seja apenas um grão doce e não amargo. um tempo do indizível partilhado. essa involução criadora necessária. entre nós. um solo comum. depois de tanto sem chão. quem sabe até novos territórios à vista. para além dos estados de dominação. enterrados os conquistadores.

* Ana Kiffer é professora de pós-graduação do Programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade (Letras) e Coordenadora do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da PUC-Rio (CTCH)