É melhor ser o cachorro de um machista de raiz a casar-se com ele

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Antonia Pellegrino*

 

“Uma mulher é sempre melhor que um cachorro”, escreveu Charles Darwin ao ponderar se deveria ou não casar-se. João Pereira Coutinho termina sua coluna na Folha de São Paulo, no dia 16 de fevereiro, perguntando: “uma mulher é sempre melhor que um cachorro?”

Ele chega à questão depois da leitura da coluna “Valentine’s day: um exemplo clássico de sexismo benevolente”, da feminista Jessica Abrahms, na qual ela começa por caracterizar o dia dos namorados americano como: “uma chance dos homens cumularem suas mulheres de amor e trata-las como princesas”.

Concordo com Abrahms no seguinte: certamente nenhuma mulher precisa do dia comemorativo em que homens vão trata-las bem. É importante identificar machismos e sexismos benevolentes, mas é também fundamental reconhecer os avanços, quando eles existem. E entre o surgimento da tradição do Valentine’s day, na idade média, e os dias de hoje, muita coisa mudou. Hoje é mais uma data em que casais trocam presentes, do que um exemplo de sexismo.

A própria Abrahms reconhece, no final do texto, que “Valentine’s day – uma celebração do amor – não precisa ser sexista.” Mas esta ponderação não interessou ao cientista político português. Porque não servia a sua argumentação anti-feminista ou ao seu sarcasmo acerca do que será uma mulher e de como trata-la. Afinal, ponderações não produzem caricaturas.

Construir uma argumentação violenta, francamente interessada em caricaturar o feminismo, que aceita sem questionar a definição de Jessica do Valentine’s day e não oferece sua ponderação aos leitores, é parte de uma campanha machista de tentativa de diminuição da força do feminismo.

Há muitos feminismos. Tomar a palavra de uma como a palavra de todas é uma generalização imprudente. Eu não falo em nome do feminismo, mas falo como feminista. Assim também Jéssica Abrahms.

Feministas não são necessariamente ressentidas, mal comidas, rabugentas. São mulheres em movimento, em luta pela força feminina e contra o poder hegemônico masculino, tomadas por afetos alegres, trabalhando na construção de um novo normal, para homens e mulheres.

Na desigualdade é melhor ser o cachorro do João Pereira Coutinho à sua mulher; na desigualdade o escritor deve tratar seu cachorro com mais respeito do que a nós.

 

* Antonia Pellegrino é escritora e roteirista, uma das curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas