O Feminismo de Hillary

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Mayra Cotta*

Em 2016, os Estados Unidos elegerão um novo presidente – ou presidenta. E o que começou parecendo uma requentada disputa entre as velhas oligarquias locais de poder, com diversos analistas dando como certas as candidaturas de Hillary Clinton e Jeb Bush, hoje é uma das mais concorridas eleições que o país viu nos últimos tempos. O lado republicano vai para as primárias com doze candidatos disputando a nomeação do partido, com o polêmico Donald Trump encabeçando a lista; enquanto do lado democrata, a candidatura do autointitulado socialista democrata Bernie Sanders está empolgando e articulando uma rede que chega a quase três milhões de apoiadores.

Há vários motivos pelos quais estas eleições são interessantes e vale a pena acompanhá-las mais de perto. Um deles é a possibilidade de vermos uma quase perfeita alegoria de um importantíssimo dilema da luta feminista atual: como romper com um feminismo que se conforma com injustiças econômicas e sociais e, na mesma intensidade, resistir àqueles que insistem em atacar os direitos mais básicos das mulheres? Em outras palavras, evidenciar que na agenda política norteamericana atual o feminismo do início do século passado, que buscava igualdade entre homens e mulheres, está ao mesmo tempo evidentemente superado e supreendentemente atual.

Na disputa eleitoral estadunidense, quando olhamos para a direita, nos deparamos com cenas que poderiam fazer parte ao mesmo tempo de um filme de terror e de uma comédia pastelão. Mesmo limitando as bizarrices às questões das mulheres, já há muito para nos chocar. O primeiro colocado nas primárias atribuiu o estilo contundente de uma jornalista durante um debate ao fato de ela “ter sangue saindo sabe-se lá de onde” e declarou que Carly Fiorina, a única candidata mulher do lado republicano, não podia ser presidente porque… “olha só pra cara dela”.

Pior que isso é o fato de o único candidato até agora capaz de ameaçar Trump ser o fundamentalista cristão Ted Cruz, que tentou, no ano passado, paralizar o governo inteiro – mais uma vez, o famoso shutdown – para que não houvesse repasse de verba a organizações que praticam aborto legal e seguro no país. É tão enraizada a misoginia no campo republicano, que, no primeiro debate, a única pergunta que se aproximou  das questões de gênero foi sobre qual mulher os candidatos colocariam na nota de $20, e mais da metade deles não conseguiu sequer lembrar de algum nome relevante, além da própria mãe ou esposa.

Diante desse show de horrores, o feminismo de Hillary Clinton, cuja limitada ideia de igualdade de gênero se resume a lutar pela presença de mulheres nas elites econômicas e políticas, parece uma retumbante declaração de emancipação feminina. Nesse mundo ainda cheio de tipos como os candidatos republicanos, este feminismo branco – que não questiona outras estruturas de poder, como a econômica e a racial – parece ser só o que temos para resistir e o mais longe onde iremos chegar.

Ainda bem que a maioria das jovens feministas que votarão pelos democratas parecem não pensar assim. Cada vez mais, Hillary vem perdendo o voto da juventude para Bernie Sanders, um senhor de 74 anos, que vem conseguindo vocalizar anseios mais radicais – inclusive para as mulheres. Enquanto homens jovens democratas se dividem quase igualmente entre os dois candidatos, há praticamente duas eleitoras jovens de Bernie para cada eleitora jovem de Hillary. Elas sacaram que tentar incluir as mulheres em um sistema intrinsecamente injusto vai no máximo diversificar o gênero de quem ocupa as posições de privilégio. E o que elas querem é acabar com esses privilégios, desestabilizar as estruturas de poder existentes, sejam elas baseadas em gênero, raça, classe social ou capacidade de consumo. E por mais que a ameaça conservadora seja de fato atemorizante, mais atemorizante ainda é conformar-se com a ideia de que a luta feminista é somente o que Hillary Clinton tem a oferecer.  

*Mayra Cotta, 29, é advogada e mestre em Política pela New School.